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* PIADAS DO SÉCULO PASSADO (Bem antigas. De fatos reais. Nomes fictícios. De Geraldo Corrêa, irmão de Roberto).

 

CONFIAR DESCONFIANDO

Durante muitos anos, residiu, entre nós, dirigindo a clínia Santa Luzia, o médico otoringolista, Octacílio L., profissional renomado, que, como muitos, fazem uma preparação psicológica do doente antes de conduzi-lo à mesa de operações.
Foi, então, que, certa feita, preparava um japonês que deveria sofrer intervenção cirúrgica numa das vistas. Depois de longa conversa com o cliente ainda não se achava muito disposto. Na hora, pois, da operação, de bisturi em punho e com a paciência um tanto esgotada, Octacílio perguntou-lhe:
- Afinal, o senhor tem confiança em mim?
- Muita, non? Como fará brasirêro: confianã cego... bastante, nom?

VIVA A ÉTICA

No dia 10 de Outubro de 1952, ouvi este diálogo entre dois conhecidos médicos xangrilaenses, os Drs. Armindo M. e Cervantes A.:
ARMINDO – Aqui entre nós: você já cometeu algum erro na profissão?
CERVANTES – Muitos, mas de pequena monta.
ARMINDO – Nem um de gravidade?
CERVANTES – Apenas um. Certa vez, tratando de cliente cheíssimo de “gaita”...
ARMINDO – Matou-o?
CERVANTES – Não. Curei-o com apenas duas consultas...

ENTENDEU?

Há anos, quando foi inaugurado o órgão marca “Hamon”, na Matriz local, o Dr. Alberto C., sobrinho de Monsenhor A., não sabendo a marca do instrumento, perguntou-lhe:
- Titio. O órgão é mesmo Hamnon? (A mão – entendeu o bondoso sacerdote).
- Não. É elétrico – respondeu.

O GOLPE DE 1956

A Empresa Paulistana de Cinemas Ltda, estava “enchendo”, com a exibição de dois “abacaxis”: “O Golpe”, no “República”, e “Flamengo”, “Droguíssima” que chegou a provocar vaias, no “Bandeirantes”.
No domingo, pela manhã, estava um grupo de cidadãos em frente à Associação Comercial, aguardando a reunião do Aéreo Clube. Nesse grupo estavam o Zé Pellegrino, grande estusiasta da aviação, e o Zé Lerro Palamone, presidente do “Lions”.
Foi quando passou por ali o Januário Pellegrino. Palamone fez Januário parar o carro, e gritou:
- Olhe aqui, preciso fazer a você uma pergunta em público.
- Faça logo – roncou o Januário.
E o Palamone:
- Me diga uma coisa: o “golpe” é no “República” ou no “Bandeirantes”?
Enquanto a turma, compreendendo o “Veneno”, se punha a rir a valer, o Januário fechou a cara e saiu “embalado”, sem nada responder...

ASSIM FALOU D. PEDRO

Várias vezes o Dr. Raul foi visto a passear com uma senhorita, o que causou certa estranheza a quem o tinha como autêntico celibatário.
- Que é isso, doutor? Parece-me que o fisgaram...
- Perfeitamente, vou-se casar em breve.
- Quando?
- No dia sete de setembro.
- Por que escolheu o “Dia da Pátrica”?
- Comigo é assim: “Independência ou Morte!”

PRECISOU SE VIRAR...


O “Ballet” de Maria O., em maio de 1951, ia se exibir num grande festival em benefício da sociedade São Vicente de Paulo. Os diretores da entidade, dias antes, já passavam os ingressos da noitada coreográfica e, entre eles, o Dr. Javert de A., então Promotor Público, e o Sr. João Alves T..
O primeiro, admirava-se como podia o João Alves tantos ingressos, os quais custavam cinqüenta cruzeiros, enquanto ele, Javert, vendia tão poucos!
Depois, descobriu-se tudo. Toledo, engana-ra se no preço e vendia os ingressos a trinta cruzeiros.
Javert, que não sabia do engano elogiou o companheiro, quando o viu em afobação, em grande atividade, pelas ruas da cidade:
- Olá, João!... que bela venda você está fazendo...
- Qual nada, doutor. Eu estou é atrás da diferença!

SERVIÇO NO “DURO”

O Mingo, que foi garçom da “A Toca”, era um tanto “queimadinho”.
Certa vez, atendeu o freguês:
- Que deseja?^
- Uma cerveja, bem gelada.
O homem apalpou a garrafa:
- Eu quero mais gelada, ouviu? Bem gelada, dura...
Então o Mingo, não satisfeito com a exigência:
- O senhor não quer também, uma faca?

- Para que?
- Pra cortar a cerveja...

O GELO é PERNICIOSO

Faz muito tempo. Quando Chico N. bebia bons uísques em copázios de gelo. Cresceu-lhe tanto a barriga que, quando foi ao Rio receber uma homenagem que lhe prestava o Fluminense F.C., disse-nos antes de partir:
- Conversa fiada dessa gente que diz que tenho “barriga dágua”... Vou aproveitar e consultar um médico.
Lá, não conteve sua admiração quando o doutor lhe falou:
- Realmente. O senhor está com “barriga dágua”.
- Como?!Não. Não é possível!... será?...
E, depois, ante a seriedade do médico:
- Pode ser... vai ver que é por causa do gelo...

CONCRETIZAÇÃO DE IMAGENS

Respeitável garfo é Esmar A. Cinco refeições completas e diárias. À noite, no restaurante, toma a última. Naquele dia, porém, não muito disposto, pediu sugestões ao garçom. Não as aceitou. Indeciso, viu passar na rua, o Messias Kara José, mancando e vermelho como um camarão. Então, pediu ao garçom:
- Faça-me camarões ensopados. Vou ver se os engulo.
Nesse momento o magricela Geraldo Correa, entrando no restaurante, foi convidado pelo Esmar a sentar-se à sua mesa. Aí, satisfeito, renovou a ordem:
- Garçom, suspenda o camarão e faça-me frango a passarinho...

SOMBRA E ÁGUA FRESCA

O funcionário era mesmo vadio. Vivia licenciando-se freqüentemente e não faltavam médicos a lhe fornecer atestados com os quais justificava seu afastamento da repartição.
Agora, desta vez, para dois meses de licença, precisava arrumar uma doença grave. Foi, pois, ao Dr. De la Mancha:
- Doutor. Sinto-me muito doente. Temo estar tuberculoso.
De la Mancha, examinou-o cuidadosamente e não se decidiu. Já conhecia as manhas do rapaz. Mas, e se
Realmente estivesse doente?
- Olha, meu amigo. Vá ao Dr. Francisco T. e traga-me uma radiografia dois dois pulmões.
O cliente foi e voltou com a chapa. De la Mancha examinou-a e concluiu apreensivo:
- Realmente: - no pulmão esquerdo vejo uma grande sombra; e o direito, está cheio de água fresca...

ILUSÃO ALCOÓLICA

As “Três Pontes”, perto de Embauba, é um local muito aprazível. Passa-se ali um dia agradável, em contato com a natureza. A turma que trabalha “de duro” a semana toda, vai aos domingos até lá. Descansa-se, come-se bem e... quase sempre, bebe-se muito.
O Nelson M., certo domingo, sem mesmo avisar em casa, rumou para lá e excedeu-se um pouco na bebida. É ele próprio quem conta:
- Pois é. Quando regressei das Três Pontes, já tarde, não estava bom. Via tudo em dobro. Não sabia que desculpa daria em casa. Resolvi falar a verdade. Assim foi quando minha mulher perguntou-me “Onde Você esteve”, eu respondi, convicto e certo: Estava nas SEIS PONTES!...

DE FATO. SÓ PODIA SER

Aos sábados o Baiano de “A Toca” , oferece aos seu fregueses deliciosa feijoada. Mas, certo dia, seu fornecedor de carnes não tinha todos os ingredientes necessários ao suculento prato. Foi, portanto, a outro açougue:
- O senhor tem pé de porco? – perguntou ao açougueiro.
- Tenho, sim senhor – respondeu o homem.
E o baiano rindo gostoso:
Então o senhor é um fenômeno!...

OPINIÃO DESTRUIDA

Quando, há pouco tempo o João M. inaugurou sua nova máquina elétrica de fazer café, chegou-se a mim e gabou-se:
- Este é o melhor café do mundo!
Então , respondi-lhe:
- Acontece que o mundo vai indo muito mal...

BOM MÉTODO

Certa vez, a maneira como o saudoso Tampinha sorveu um cálice de pinga, causou estranheza a um seu prezado colega de bebedeiras, que lhe perguntou:
- Por que você bebe a cachaça assim, fechando com os dedos o nariz, como se estivesse bebendo óleo de rícino?
- É para não sentir o cheiro dela.
- E que lhe acontece quando sente o cheiro?
- Fico com água na boca...
- Ahn...
- ... e você sabe que eu não gosto de pinga batizada...

OH! A ESPERANÇA...

Com o rosto inchado, sentei-me na cadeira do gabinete dentário do Luizinho C. e agüentei o manejo do boticão.
Depois da extração de três dentes, continuando a dor, verifiquei com a língua que o dente infectado não havia sido extraído. E exclamei:
- Doutor Luiz: o senhor não extraiu o dente que dói...
- Calma, meu rapaz, calma. Sua vez chegará...

LUGAR IMPRÓPRIO

Antes das reformas que sofreu, o Banco do Gentilino (Comercial), oferecia ao público fácil acesso ao seu interior, atrás dos balcões e mesmo à gerência. Clientes e amigos mais chegados ao gerente usavam todas as portas para se aproximarem dos funcionários.
No dia desta história, em 1952, Gentil atendia a um cliente, no balcão. Rail C., com seus dois metros de altura, sugiu afobado e precisava falar ao gerente em particular. Havia pressa. Agachando-se pelas portas, foi ao interior, passou um braço pelo ombro de Gentilino, que já havia atendido o outro cliente; e andando, com ele, rumo à gerência:
- Escuta, Gentilino. Tenho um negócio bom pra você...
- Qual!...
- Sério mesmo! Ótimo negócio! Escute...
- Aqui, não!
E o Gentilino, fugindo do braço do Rail, virou nos pés, rapidamente.
É que o Rail havia conduzido o Gentilino para o interior do cofre do banco...

SÓ PELE DE LEÃO

O Lions Club de Xangrilá, andou em intensa campanha pró-vítimas de Santos. Cada “leão” apresentava ao amigo um cartão que pedia a importância de Cr$ 50,00. Com cinco assinaturas, completava-se a tarefa de cada associado.
O Braz A.(Braizinho), foi ao Luiz da Cooperativa (Coneglian) e “chegou-lhe a brasa”. Luiz, pegou o cartão, olhou, fechou os olhos, e, como se estivesse indignado:
- Vocês são os leões, tem juba, não querem saber de jaulas nem de carne dura. Nós coitadinhos, porém, é que “urramos”... com a “gaita”... ta?

NÃO ESPERAVA RESPOSTA

Cambaleando (não sei porque), o matuto, em um dia do ano de 1952, entrou na agência local dos correios. Com a falta de funcionários, o que se dá até hoje, o nosso agente, Sr. José Ferraz , aproximou-se do guichê da posta-restante para atender ao campônio:
- Mecê tem carta pra mim? - perguntou o homem.
O Ferraz, pelo estado do homem, pelas ocupações que tinha, nem chegou a perguntar o nome do caipira. E disse:
- Não, senhor.
E o caboclo, dando volta nos pés, para sair:
- Vô chora muito, não?


TENTAÇÃO

Certa ocasião, Raul T. e Cervantes A., fizeram um pacto para deixarem de beber. Dizia o primeiro:
- Não fica bem, para nós, médicos, atender a um cliente com esse "bafo de onça" Que acha?
- Perfeito. Vamos selar a combinação. Dez mil cruzeiros de aposta.
- Feito.
E os meses se passaram a seco. Um dia, Cervantes foi atender a um cliente, que, por exceso de bebida alcoólica, estado de coma. Conseguiu fazer o doente abrir a boca, para lhe ver a língua. Quando se aproximou para examinar a língua, deu um safanão no enfermo e exclamou contrariado:
- Vá cheirar gostoso no inferno, "sô"...


"QUE DEVO FAZER?"

Lá pelo ano de 1927, o Clube "7" não andava bem de finanças, pois até atrasara cinco meses no pagamento da luz. A sede, denunciava descuidos na arrumação. Somente o bar, de propriedade do Sr. Salvador P., apresentava ordem e limpeza, muito sortido de mercadoria; estava em franca prosperidade. Pudera! Por uma lata de goiabada cascão "Colombo", daquelas ovais, davam-lhe uma "ficha" de 20$000, quando ela custava ao Salvador apenas 3$600! E lá, ao canto do balcão, enfeitando-lhe o bar, havia sempre uma pilha delas.
Mas o Salvador ia, aos poucos, sentindo e sofrendo aquela influência de desordem e decadência que rodeava seu estabelecimento, embora prosperasse a olhos vistos.
Certo dia, da mesa onde estavam os Drs. Georgino C. Vasconcellos S., ambos de saudosa memória, Antônio M. D., o Pedro C., o Cesário Silva, o Manuel. (da Estação), o Suetônio Corrêa Júnior e o Luiz T., chamou-se o Salvador. E o Dr. Georgino, que se aprestava para sair, dando uma ficha de vinte mil réis ao Salvador, pediu-lhe:
- Embrulhe-me uma lata de goiabada cascão.
- Acabou tudo, doutor.
- Como assim? Porque não há mais?
- Porque se vende tudo, doutor...





AZARES DE JOGADOR

Em 1936, no velho casarão do mais velho grêmio recreativo de Xangrilá, o "Clube 7", jogava-se o "camplê", baratinho, mas de muita rincha entre os parceiros. Entre eles, o Mário P., o Chico E.S., proprietário do bar do clube, o Cesário, o Zico A., o Bady M., o Antoninho da farmácia* e outros que se revezavam.
O Zico, andava num "peso" de seiscentos demonios. Todo dia deixava lá dois cacifes de vinte mil réis. Era dinheiro, naquele tempo. Naturalmente, começou a "chorar", a ponto de comover os próprios parceiros. Estes, então, resolveram "mudar" o azar do Zico para sorte. E passavam de "relancine" na mão, até que o Zico "batesse". Assim, durante muitos dias, o Zico só soltava aquelas suas intermináveis gargalhadas, contando os oito e dez mil réis que embolsava diariamente.
Certa noite, além da facilidade que os parceiros dispensavam ao Zico o homem apareceu acompanhado de sorte espetacular. "Batia", que era um Deus nos acuda. Mas a certa altura, quando o Zico ria desbragadamente atrás de um montão de fichas, todos os demais parceiros levantaram-se e exclamaram a uma voz:
- Ainda bem que este jogo não é de brincadeira...

 

COLEGUISMO

À hora do aperitivo, naqueles bons tempos do "Pellizzon", com o Ladeira, o Vitiello da Sudan, o Figueiredo da Singer, o Azzoni, o Mandioca (Benedito L.), o Artur B., o Gentil P., o Anisio B., o Favorino R.l e tantos outros -, com um maço de jornais e um arquivo de papéis que sempre lhe enchiam os bolsos, entrava o Carlito (Carlos M.), com sua tradicional saudação:
- Salus populis!...
E pedia um "rabo de galo", aproximando-se da mesa onde se sentavam os dois Mozart, o Nunes e o Abreu, o Nair e o Merigue. Este, nunca bebia, mas em compensação segurava seu indefectível guarda-chuva e ficava mexendo as pestanas a tudo que ouvia dos colegas jornalistas. Foi um daqueles dias que aventou:
- Essa saudação do Carlito já está muito chata...
- É mesmo - concordou o autor destas linhas, que, noutra mesa vizinha, com o Rangel e o Anísio, cultuava a imagem de Nossa Senhora da Brahma. - Para amanhã, arrumar-lhe- ei melhor forma de cumprimentar os amigos.
No dia seguinte, quando cheguei, a casa estava lotada. Gritei para todos:
- Bons dias, ilustres páus-dágua...
Houve, então, uma onda de revolta contra mim. Assim, não tive outro recurso. E completei:
- ... meus caros colegas e amigos!

PIOR A EMENDA...

A dona da pensão de mundanas estava enfezada quando entrouna redação de "A Cidade" para dizer ao "seu" Nair que uma turma de rapazes estivera em sua casa a beber e saira sem pagar a conta do consumo. Queria chamá-los a tento, publicando seus nomes pelo jornal, convidando-os a pagar os débitos. O jornalista, porém, ponderou à dona da pensão as inconveniências, citando artigos da Lei de Imprensa. Podia-se fazer, porém, um aviso aos devedores, convidando-os a pagar os débitos, sem discriminação de nomes. A mulher, teria entendido a explicação do jornalista. Tanto que concordou. Mas não entendeu. Decorridos alguns dias voltou, satisfeita, para pagar a publicação e, participar que todos haviam liquidado seus débitos.
- Aí está! - exclamou o Nair, idealizador da manobra. Então...
- Bem. Agora -, continuou a mulher - estou muito satisfeita e queria do senhor a publicação dos nomes dos distintos rapazes que pagaram as suas contas... para agradecer-lhes...

SEMPRE HÁ "FUROS"

O repórter recebeu ordem do "seu" Nair pra arrumar notícias de qualquer maneira. O jornal ía sair com dez páginas. E ele, reporter, depois de bater pernas pela cidade, sem resultado, foi topar o Azzoni, lá na prefeitura:
- Tem alguma notícia boa para os meus leitores?
- Não. Hoje não. - respondeu apressado o dedicado funcionário, que no momento estava sendo chamado pelo Prefeito pela campainha.
Aí, o repórter segurou-se na última táboa:
- Quais os impostos que se arrecadam neste mês?
- Nenhum - respondeu Azzoni, já empurrando a porta do gabinete do Prefeito.
O repórter, então, ante os olhares compadecidos do Querino e do Benedito L., exclamou vitorioso:
- Pois aí está. Eis uma boa notícia para os contribuintes...

O QUE OS OLHOS NÃO VÊEM...

O Faria, "pranteado" gerente do Banco do Estado, entrou no "Pellizon" e tomou rápido uma "cangebrina" sem nem sequer cumprimentar seus muitos amigos que ali se achavam: o Azzoni, o Artur, o Benedito, o Lourival, o Sinhô e outros, que, naqueles tempos, tratavam alí do fígado com grandes "farmácias". E se foi logo, sem um aceno, sem tomar gosto da "Ideal", de Santa Adélia. Mas voltou logo, e depois a todos, exclamando:
- Que delícia!...
E o Artur encabulado:
- Mas não é da mesma "uca" da primeira dose?
- É. É que eu tinha esquecido os óculos em casa. Agora o sabor é outro.

“VÁ LÁ. VOCÊ É AMIGO."

Uma “captura”, depois de dar “batidas” em Campinas, veio até Xangrilá. Jogava-se a “campista” e o “bacarat” na chácara do Sr. Francisco C., gentilmente cedida. Era “benefício”, mas a turma paulistana cercou a casa e “pegou” muita gente. Houve quem levasse, no peito, escapando, até cerca de arame farpado... Mas quase todos fizeram fila; tinham que pagar a multa e assinar o auto de infração.
O delegado C.C. e mais um investigador, procediam à verificação do dinheiro e tomavam as assinaturas.
Um senhor respeitável, que na fila aguardava sua vez, dizia ao cidadão da frente:
- Que vou fazer? Dar meu nome? Que dirão meus filhos?
- Qual, homem! Faça como vou fazer, disse o outro. Assina um nome qualquer.
Mas, diante do C.C., o velhote só pode arrumar um nome. E assinou: “Deodoro da
Fonseca”!...
Punha-se já para fora, quando o cupincha-fiscal, depois de examinar a assinatura, gritou para o homem:
- Velhinho! Venha cá. Você esqueceu de botar aqui o “Marechal”, na frente...

A FORÇA DOS VOCÁBULOS

Foi no ano de 1948. O Antonio B. era vereador, mas não dava o ar da graça nas sessões.
Faltava seguidamente, o que motivou indagações de amigos que lhe tinham dispensado voto:
- Que diabo! Você não aparece na Câmara! Por que motivo?
- Aquilo está uma avacalhação! Estou a esperar que melhore...
- Como assim?
- Ora. As sessões são ordinárias. E, quando não são desta espécie, são extraordinárias,
o que é pior. Logo, vocês hão de convir, que devo esperar pelas melhoras...

CÁLCULO PORTUGUÊS

Joga-se uma “caxeta braba” no “Tênis”. Os que haviam sido eliminados, deixaram a mesa. O Gentilino e o Cardarelli, esperavam pela decisão dos finalistas, os portugueses Francisco E. S. e Francisco L.. Quarenta “mangos” deveriam ser disputados, “livres de geada”. Foi, então, que o Francisco L. propôs:
- Chico. Vamos rachar? Vinte para cada um? Aí, começa-se outra...
- Nada de “rachaire” – respondeu o Chicão. Tu é um amigo... bamos bazeire o seguinte.
Quem perder ganha binte. Que tali?

VITORIA DO SILÊNCIO

Na grande festa que o casal João A. ofereceu aos seus amigos, por motivo de suas bodas de prata, enquanto se bebia e se comia à farta, batia-se também o papo.
Sinhô (Octávio de M.), o mais novo agente da “Deltec”, procurava convencer o Sr. João A. a comprar algumas ações daquela importante organização de investimentos. E tanto falou que misturou todos os argumentos. Foi assim que me contou:
“ – Olha. A certo ponto, estava tão embrulhado, que nem eu entendia o que falava. Então, chamei o Carlinhos (Antonio Carlos Q.), que como você sabe é o representante geral da Deltec. O Carlinhos, então, encheu o João A. de conversa. Eu, só escutava. Não entendia nada. Resultado:
- É. – Interrompi. Qual foi o resultado?
“- Acabei comprando um terreno do João A. e o Carlinhos, outro... “

O GOLPE DO ALFAITE

Na Revolucção Constitucionalista de 1932, o Batalhão Xangrilá estava pronto para seguir rumo às barrancas do Rio Grande. Os voluntários, bem dispostos, em frente do quartel (antigo préido da Escola Normal) passavam pela última revista.
J. Cândido, velho morador de Xangrilá, nomenado sargento pelo Capitão Manoel da S. M. , examinava atentamente o fardamento e a equipagem dos seus soldados, quando, no último pelotão, um recrutazinho, o cerra-fila, estava coberto de divisas. Por algum tempo, ficou encabulado, não sabendo como se dirigir ao soldadozinho. Enfim, arriscou:
- O senhor poderia me informar qual o seu grau militar neste batalhão?
- Recruta, senhor Sargento.
Aí, Zé C. quase que explodiu de raiva:
- Como o senhor, me explica, então, estas trinta divisas nas mangas da túnica^
- Muito fácil. O alfaiate cobra a mil réis cada uma. Eu dei trinta... ta certo?

LÓGICA DO MATUTO

Aconteceu bem antes das últimas eleições municipais de 1955, em Xangrilá. A residência do candidato a vice-prefeito, o Dr. O. Z., causídico de grande clientela, afluíam numerosas pessoas, de todas as classes sociais. Tanta gente, às vezes, que muitas pessoas, as mais simples, aguardavam para falar ao advogado e político, sentadas nas calçadas, porque não havia mais lugar no interior de seu gabinete e no alpendre que dá para a rua.
Por isso, ficou muito admirado certo matuto que por ali passara (Rua 13 de maio, esquina da Alagoas). Foi ao empório de outra esquina e perguntou ao seu proprietário, o Sr. F. L.:
- Sô moço: mecê pode me faze o favo de me dize quem mora nessa casa que ta um mundão de gente?
- É o Dr. O. Z.– respondeu o Sr. L.. Queria falar com ele?
- Queria, mas não é com ele.
- Com quem o Sr. queria falar?
- Não. Num é isso. Eu pensei qui o Padre de Tambaú * tava aí... tanta gente!...

(*) Donizzette,que tantos milagres realizou. O povo sempre cercava-lhe a casa.

“QUE BESTA SOU...”

O primeiro automóvel movido a gazogênio que apareceu em Catiguá, foi em 1942. Said Faraj, seu proprietário, residia lá. Que sucesso causou na vila, quando o Faraj, aprumado numa elegante roupa, parou o veiculo, em casa, bateu a porta e foi para o almoço! Olhou para trás e duas dezenas de curiosos já cercavam o “29”, e faziam comentários:
- Como pode andar sem gasolina?
E o outro:
Qual! Isso não anda.
Vai daí, depois de muito tempo, o Said veio de dentro, entrou no carro e endireitou-se no
acento. Os curiosos, esperavam. Queriam ver o auto sair. Deu a partida. Nada. Outra vez, nada.
Cinco, seis, dez. Acabou-se a carga do acumulador. Desenxabido, o Said pede ajuda. Os homens empurraram o carro rua abaixo. Nada de pegar. Tornarama empurrar pela subida. Nada. Já começavam a falar mal do saudoso Dr Fernado Costa, quando um amigo de Faraj chegou, admirou-se de ver tanta gente cansada e perguntou-lhe que havia.
- Essa geringonça não quer funcionar – respondeu.
- Desse jeito não funciona mesmo, Said.
- Porque?
- Porque não acenderam o carvão...
- Anh!!!!


CENA MUDA DO RISO

No findar alegre de 1955. Um grupo de amigos, entre os quais Silvério M. Neto, João G. C. e Walter P., lembravam, ao aperitivo, certas piadas desconcertantes envolvendo a muitos dos nossos políticos. As vítimas, criadas pelo espírito hilariante do brasileiro, desfilavam, deixando atrás estrondosas gargalhadas. As figuras de Porfírio e Adhemar, puxaram o cordão do riso, não se deixando mesmo a escapar as personalidades venerandas de Getúlio e Dutra.
Quando o repertório parecia esgotado, alguém ponderou:
- É verdade. Não se fez ainda uma piada do Jânio...
- Pra que isso? – obtemperou o João C.. Já não foi publicada a fotografia dele nos jornais?

DE BEBER TAMBÉM SE MORRE

Há aqui uma turma de “pescadores” que, volta e meia, “picam a mula” para Itapura: Said T., Lourival, Prof. Musa, Sinhô, Constantino, Baiano da “A Toca”, Moacir C., Dr.De la Mancha, José (Bolacha) Mistieri e outros.
Mas o Dr.de La Mancha, que não tem ido à “pesca” ultimamente ponderava:
- Vocês viram o que aconteceu ao Stélio M. L.? E vocês que vão sempre ao Itapura não têem medo de que lhes suceda algo semelhante?
- Com a minha turma não há perigo – afirmou o Zé Bolacha. Isto é...
- Isto é o que?
- Só se morrer alguém afogado em Brahma!


O QUE NÃO SE APROVEITA DA VACA

Aconteceu no churrasco em homenagem a um político cujo nome, por óbvias razões, deixamos de citar.
Depois dos “comes”, “bebes” e discursos laudatórios, o homenageado levantou-se para a oração do agradecimento:
- Excelentíssimas senhoras e senhoritas, meus senhores...
Logo em seguida ao clássico intróito, porém, escapou-lhe ruidosamente pela cavidade bucal
uma vasta bolha de ar que se lhe formara no estômago. Muito vermelho, o político excusou-se:
- Perdoem-me a inconveniência. É que sofro de aerofagia...
- Aerofagia, nada! – aparteou o Dr.De La Mancha– é que os outros comeram a carne do boi e
e Vossa Excia. comeu o berro...

TEMPOS BONS!...

Corria mansa aquela noite de julho de 1926. Um friozinho cortante entrava no “Chevrolet” de Said T., que, com os seus inseparáveis companheiros Amador S. e Horácio R., regressavam de uma festança em Jaboticabal. Entre eles, houve mesmo alegria, quando, já noite alta, alcançavam a localidade de Vista Alegre. Todos estavam famintos. Onde comer algo, então? Tudo, no lugar, dormia tranqüilamente. Não havia, pois, outro remédio: acordar o proprietário do botequim.
Esfregando os olhos, já o botequineiro servia aos notívagos fregueses, acomodados na mesa, o de que podia dispor àquela hora: salames, queijos, sardinhas e bebidas várias.
Em quanto importaria a conta da despesa, depois daquela longa mastigação? Cem mil réis? Duzentos? – conjecturavam os viajores já um tanto de bolsos escalavrados com os gastos feitos na “Cidade das Rosas”. Verdade que as coisas naqueles bons tempos, eram bem mais baratas... mas acordar o homem e a família àquelas horas...
- Quanto é a nossa conta? – perguntou o Said, já com a dextra no bolso da carteira.
O homem debruçou-se no balcão, sobre um pedaço de papel pardo, garatujou uma porção de números e veio para a mesa:
- Os senhores compreendem... a estas horas...
O Said, porém, apressado repetiu:
- Quanto é tudo?
E o homem ainda meio receioso:
- Com o incômodo e tudo, trinta e sete mil e oitocentos réis...

PRIVILÉGIO

Ao mesmo tempo em que se feria a campanha eleitoral para escolha dos parlamentares às casas legislativas do País, no ano passado, nos céus de Xangrilá, por mais de uma vez, foi avistado misterioso disco voador.
Poucas pessoas viram o estranho aparelho riscar o espaço, consoante noticiava “A Cidade”, numa edição, que, ao mesmo tempo, inseria os resultados das apurações em Xangrilá. Apenas Antonio M. se elegera, Francisco C., outro candidato, alcançara poucos votos.
Comentava-se o fato, numa roda em que se achava o próprio Francisco:
- Absolutamente.
- O Francisco teve o seu consolo – disse alguém.
- Como assim?
- Ora! Não se elegeu, mas em compensação, viu o disco-voador...

JUSTIÇA ESCOLAR

Naquele tempo, Xangrilá não possuía ginásio. Corria manso o ano de 1925 e eu fui me juntar aos muitos jovens de Xangrilá que cursavam o famoso Ginásio S. Luiz, de Jaboticabal, hoje Colégio Estadual “Aurélio Arrobas Martins”, nome do seu grande fundador. Lá, já estavam
O Ítalo Z., Antônio B., Mário Z., Marcílio D. P., Oscar M., Miguel S. e Abrão E. S., estes três últimos já falecidos, além de outros, que aí estão vivinhos da Silva.
Na aula de física, gozávamos de relativa folga: o Prof. Gustavo F., na cátedra, abria “O Estado de S. Paulo” e nós fazíamos a sabatina. Tínhamos que reproduzir as teorias insertas naquele grosso livro verde de Nobre. Havia, como hoje, os corajosos: aqueles que colavam.
Victor C., Junior, moço ativo, filho de Jaú, hoje brilhante causídico na capital, com o Abrãozinho ao lado, colavam, desbragadamente, copiando a lição do livro.
Na outra aula, o professor Fleury leu as notas:
- Victor, nota dez: Abrão, nove...
Abrão achou ruim, pulou da carteira e protestou:
- “Sêo” Fleury. Não está certo! Por que o Victor dez e eu nove? Minha prova está igualzinha à
dele!...
- Perfeitamente - , concordou o mestre, com seu sotaque eslavo. O senhor nom prrendeu
cora. O senhor botou no prrovas “Vide figura página 357”, mas seu prrovas só tem dois páginas!
(O Abrãozinho havia colado até a indicação da figura elucidativa.)


NÃO! ISSO É DEMAIS!

Mais uma vez o popular Tampinha se apresentava ao Dr. M. C. R. delegado de polícia, após ter visto, naquela manhã, o “sol nascer quadrado”:
- Pois é, doutor, eu bebi um pouco...
- Qual nada, homem! Eu vou é lhe meter um processo pra você ir na colônia agrícola
correcional!
- Isso não, doutor. Caráter eu tenho.
- Engraçado!... você tem caráter?
- Se tenho... por que é que estou sempre aqui? Não é uma questão de firmeza
de caráter?

CABRA DURO PRA SOLTAR

Já foi há alguns anos. Havia festa na residência do Cel José Pedro M. Numa das mesas, onde estavam João M., Bento G. S., J. de Andrade, S. M. Netto e Salvador C., alguém aventou a idéia de se beber uísque com limão. Resutado: liquidou-se tudo, uísque e limão.
Vevé, o Minervino, sugeriu fazer-se uma vaca. Cada qual entraria com uma parte em dinheiro para comprar o uísque e limão.
O Salvador, então, mais do que depressa, levantou-se e concordou:
- Molto bene. Dammi lá cesta Che io ti daró il limone.
Trocado em miúdos: Muito bem. Me dá uma cesta – eu entro com o limão.

NÃO TINHA MAU GOSTO

No início da administração Octávio G., quando tudo corria mansamente, reuniam-se no gabinete do prefeito, vários amigos, amantes da literatura e mesmo literatos,. O Bollivar (*) servia café. Falava-se das últimas leituras. Estavam ali, sempre, o Sebastião B., de saudosa memória, o Cristóvão F. (o Acris F. de “A Cidade”), o Inácio E. e às vezes, o Alberto C. e o Caetano G.
- Achei o Bernardes mais árido do que o Vieira – dizia um. No que acham vocês nessas leituras que cheiram a sacristia – dizia outro. Prefiro ler um Eça ou um Aluízio.
- Agora, estou lendo o Vianna Moog. Esplêndido.
- Eu, o Cláudio de Souza.
E o Sebastião B., voltando-se para o prefeito que assinava papéis, silencioso, perguntou:
E você, Octávio? Que está lendo?
- Por hora, nada.
- E qual o livro que mais prefere?
- Com franqueza, prefiro o “Livro do Ponto”...

(*) Bolívar A. L., servente da prefeitura.

PESSOAS PARECIDAS

José A. B., por volta de 1937, dirigia, diligentemente, seu escritório de despachante. Os papéis, não dormiam nas gavetas. Num abrir e fechar dólhos, arrumava-se uma carteira profissional de motorista, ou se resolvia um caso de diferença de impostos.
Não se justificava, pois, o estrilo de Belmiro L., quando foi até ao escritório do atual prefeito eleito, a reclamar pela carta de habilitação a motorista, que havida encomendado há dias.
Você não tem razão, Belmiro, - respondeu-lhe o José A.B. Seus papéis estão em ordem e a Secção de Trânsito, espera tão somente pelas três fotografias necessárias...
Realmente, o Belmiro não havia ido ao fotógrafo. Estava barbudo e como rosto inchado. Por isso, concordou:
- Bem. Já resolvi o caso. O Antenor (irmão do Belmiro, que, naquela época, trabalhava nos escritórios das indústrias Matarazzo), tirou ontem duas dúzias de fotografias. Você telefone a ele e tome-lhe três emprestadas.
- Mas...
- Nem mais nem menos – insistiu Belmiro. Diga-lhe que quando eu tirar as mihas, eu as
devolvo, homem.

O POBRE DESCONFIA...

Em 1950, a diretoria da Sociedade de S. Vicente de Paulo, promoveu uma campanha em favor dos pobres que moram na “Vila”. Chamou-se a “Campanha do Arroz” e visava conseguir alimentação para as famílias ali abrigadas pela caridade xangrilaense.
Entre os primeiros contribuintes, figurava o nome do Sr. C. F. L., com um saco de arroz. Isso causou estranhesa ao Sr. Agrício R. A., ituano, e ao próprio F. L., mogiano e irmão do ilustre causídico:
- Você viu, Floriano? Que desperdício... um saco de arroz!
Se fosse uns dez litros... Mogiano e ituano, não perdem a cabeça assim...
Floriano concordou e foi procurar o irmão. Aquele perdularismo, não podia continuar. E
Observando o doutor:
- Olha, Crescêncio: se você continuar a facilitar assim, teremos que nos mudar de Xangrilá, pobrezinhos, talvez até pra Vila de S. Vicente de Paulo...

 

CONFIE NESSA GENTE...

 

Em 1943, quando o autor destas piadas inaugurou a Rádio Difusora de Xangriláe passou a dirigi-la, vivia ele em franca atividade, buscando notícias para o jornal falado da emissora.
Foi quando se encontrou com o Floriano L. , sempre impenetrável, principalmente em matéria política:
- Olá! Como vai essa bizarria? Quando você me dará uma notícia?
- Ora. Posso lhe dar uma agora. Mas é segredo. Não é para ser divulgada.
- Conte lá.
E contou. Depois, insistiu o Floriano:
- Por favor, não publique isso.
- Pode você ficar descansado. Confie em mim. Dou-lhe minha palavra de honra. Não contarei a ninguém. Ficara o dito apenas entre nós e o microfone da Rádio.

 

 

CULTO A POESIA

Numa reunião do Rotary Club local, dedicada às senhoras dos rotarianos, houve canto, música, poesia... e boas piadas. Num ambiente da mais calorosa cordialidade, os convivas passaram cerca de duas horas, que se escoaram rapidamente.
Após ter-se feito boa música e bom canto veio uma das piadas. Alguém escreveu uns versos e os encaminhou ao Secretário J.A. Sobrinho, que, com sua voz de “mezzobasso”, os leu, ao microfone, solenemente:

Poesia do Totó

Papagaio cá,
Papagaio lá
O Gerente do Banco telefona.
... e o totó não está
Nessa hora, o nariz do Dr. Antônio Z. ficou mais adunco. Mas também ele se riu a valer.

 

MEMÓRIA PRODÍGIO

A senhora do Sr. Pedro Stuginski (Pedro da Estação), no acidentado mês de agosto de 1955, foi com seus filhinhos passar uns dias, com parentes, em Urupês. Tinham de tomas o ônibus, e sua residência ficava longe do ponto, na Esplanada 1º de maio. Mas o Sr. Sebastião Rosin, que é mecânico e sempre está experimentando m carro, apareceu e ofereceu-lhes condução até aquela praça.
O menino Vergilínio, de três anos, com seus cabelinhos cor de outro, levantou os olhinhos azuis e perguntou ao Sebastião:
- Onde que ocê vai me levá?
- Para Urupês, - disse Sebastião – já sabendo que para lá iam.
Razão, pois, teve o garoto, quando saiu amuado do caro, na Estação, para tomas o ônibus, ele que pensava ir de automóvel até Urupês...
Mas não disse nada, nem chorou mesmo. Obedeceu e foi. Uma semana depois, regressavam todos. Foi quando o Sebastião apareceu em casa do Sr. Pedro e vez alguma “festinha” na cabeça do menino. Vergilinho levantou o rostinho corado pra o Bastião e semi-carrando os olhos, com ares de reprimenda lembrou:
- Mas como ocê é mentiroso!

AI É QUE ESTÁ O BUSILIS

Foi na outra campanha presidencial.
Alguns xangrilaenses se encontravam em São José do Rio Preto e, lá pelas tantas, foram a uma “boite”. No calor das danças e driques, começaram os “vivas”:
- Viva o Getúlio!
- Viva Brigadeiro!
E o coro se seguia:
- Vi... vôo...
A certa altura, os xangrilaenses, chefiados pelo Dr. De La Mancha, resolveram tomar parte naquelas manifestações. O facultativo, que, como os outros, bebia à mesa do “Pé de Bicho” (Luiz Carlos L.L.), resolveu dar um “Viva” ; e o fez assim, estentoricamente:
- Viva o Luiz Carlos!
Não é preciso dizer o resto. A polícia se lembrou do Prestes ( * ) e... até que provassem que as pulgas não eram elefantes...

( * ) Luiz Carlos Prestes

 

“EU SEI O QUE FAÇO...”

Em 1938-39, o Operário F. C., sob a direção técnica do Dr. Souza Grota, atravessava fase brilhante de vitórias frente a adversários notáveis no esporte bretão. Também, é bom que se diga, que o Sr. Vitório Mazzi, habitual árbitro das pugnas, sempre puxava a “braza para a nossa sardinha”, trilando o apito em ocasiões psicológicas.
Aconteceu que Catanduva ia receber a Portuguesa de Desportos , da Capital , ocasião em que a colônia lusa local seria também homenageada.
Os diretores do Operário , entre eles o dr. Ítalo Záccaro , então , preveniram o Mazzi , que ia arbitrar a partida:
- Olha , Mazzi : Precisamos ganhar o jogo . Mas , vê lá . Apite com jeito , de modo a não demonstrar...
- Deixe por minha conta .
Durante o jogo , o Mazzi apitou , garantindo a nossa vantagem de dois tentos a um . Mas apitou tanto , que os próprios diretores do Operário já se sentiam envergonhados . Fausto , por exemplo , centro-avante luso , toda vez que era pilhado na área contrária , “estava” em impedimento.
O Fausto queimou-se . Tomou da bola , atravessou todo o campo , dlibrou todo mundo e quando preparava o pelotaço p’ra gol , o Mazzi marcou o impedimento . O Ítalo , então , não se conteve e gritou :
- Que é isso , Mazzi!
E o Mazzi , em voz alta , do meio do gramado :
- Ora! Quer que deixe o homem ? Ele marca! Não é p’ra segurar?

GOLPE POLÍTICO

Nessa última campanha eleitral (1955), houve dia em que o vereador Sebastião Pereira desancou a turma do PSP, do Adhemar e, também, determinados funcionários municipais.
Assim foi que, após violenta oração na “difusora”, pessoa de intimidade do Bastião, depois de cumprimenta-lo, avisou:
- Sabe que o Diretório do PSP mandou chamar o Lucio Cacciari e agora estão em conferência.
- Porque o Lúcio?
- Porque ele é fabriacante de anestésicos para dentistas.
- E que tem isso com a política?
- Muito. A turma do PSP mandou o Lucio fazer um anestésico bem forte...
- Ahn...
- ... pra dar injeção na tua língua...

 

NÃO ERA PEDIATRA

O Pedrinho Castelá se julga entendido de tudo. Gosta de uma discussão e nelas se inflama e esbraveja. Em matéria de futebol, conhece todos os craques; em café, todos os tipos; de política, todos os homens; enfim, quando não sabe muito, um pouco de tudo lhe dá muita vantagem, porque conversa com lógica e sabe se safar da contenda quando o terreno lhe foge dos pés.
Foi há alguns anos, na Praça da República, que um grupo de cidadãos, rodeando um cobre aberto de trator, falavam e discutiam sobre o funcionamento da máquina e das peças de que se compunha o motor do veículo. Chegou-se a uma discussão e resolveram apelar ao Pedrinho, que passava, para que decidisse a parada.
O Pedrinho debruçou-se no para-lamas e passou a examinar, apalpando velas, gerador, caixas de voltagem, tudo. Em torno, silêncio completo. Esperavam pela decisão. Mas ele, não “pescando” o funcionamento da máquina e querendo sair do impasse airosamente, como um mestre, disse aos amigos:
- Vocês vão me desculpar. Por falar a verdade, nada entendo de puericultura...

PREVISÃO EXATA

Pedro Kavindri elogiava o Antero Ferreira pelo Magnífico churrasco que preparara no dia do aniversário do João da Casa da Lavoura. E o Antero, cheio de si, não se contentou:

- Olha, velhinho, você não viu nada! Ontem, fiz um churrasco para um casamento. Estava de desmanchar!

O Pedro, que tem uma dezena de filhos, entre os quais moças casadoiras, estranhou:

- Ora, bolas! Então, para eu comer carne melhor do que a que eu comi, temperada por você, tenho que casar uma filha?

FÉRIAS NECESSÁRIAS

O Mário Denise, de quando em vez, aparece em Catanduva; anda pra cá, pra lá, desaperta-se, vai vivendo. Fica ali no “Beco das amarguras”, topando com uns e outros, e a todos lembrando velhar passagens, boêmias, dos velhos tempos.

- Mário. Mas você não se cansa de nada fazer... ficar nessa vida?

- Verdade. Você tem razão. Vou ver se tiro umas horas pra descansar...

DESPESA IMPREVISTA

Tipo parecido com o Adhemar de Barros, é o Dr. De la Mancha. Vinha da pescaria na “Ponte”, quando foi alvo da curiosidade popular, ao estacionar num bar de cidadezinha do caminho. E, ao seu companheiro de viagem, um caboclo mirrado perguntou, arregalando os olhos cheios de amarelão:

- Moço. Esse granão aí não é o Valdemar de Barro?

- É ele mesmo – respondeu, sério, o companheiro de DE la Mancha. – Anda incógnito, escondendo o que é.

A notícia correu célere. O bar enche-se de criançada.

- Sô Adhemar, “me paga” um sorvete?

E uma centena de moleques tomou sorvete. Arrumaram-se “caramurus” para a partida do “eminente” político. E quando o “doublé” de Adhemar acelerou o carro para prosseguir a viagem, ouviu-se a um tempo: “hurrah! Viva Adhemar! Pum! Pum! Pum!”

E na estrada, De la Mancha para o companheiro:

- Está a calhar! É capaz que eu me candidate...

CONVENIÊNCIAS

Era dia de festa municipal. Houve alvorada, foguetório, sessão solene, churrasco na Prefeitura, bandeiras em mastro, desfiles, o diabo. Estava movimentando o dia, sem se falar na presença dos “graúdos”, dos jornalistas, da Guarda Noturna com seu uniforme de gala, do Tiro de Guerra, enfim, de todos os “quejandos” que ornamentavam um grande feriado.

E o nosso amigo e colega Mozart, (*) apesar de ser data de seu aniversário natalício, o que se dava por coincidência, lá também se achava no borborinho geral, com sua indefectível “speetgraph”, batendo chapas para sua reportagem de “O Século.”

Num momento em que o solerte jornalista e fotógrafo interrompia sua atividade, foi abordado por um amigo, desses que acompanham o “carnet” social de “A Cidade”:

- Como assim? Hoje é dia do seu aniversário! E você está trabalhando!

- Quem é escravo do trabalho...

- E a data? Não será comemorada?

- Como não? Então, não está ouvindo a música, o foguetório, os discursos?

- Sim. E então?

- Pois é. Tudo isso é em minha homenagem...

QUESTÃO DE DROGAS

Madrugada. Perua do Jânio acordou médicos e funcionários das casas de saúde e postos públicos de serviço. Desfalques de medicamentos. Processos administrativos. Médicos aflitos. Funcionários desorientados. Reboliço entre homens e olheiras fundas, sonolentos...

- Que está havendo? – perguntou-me um curioso?

- Sujeira grossa! A penicilina sumiu e os homens do Jânio querem saber para onde foi, com tanta falta por aí...

- Dessa escapei – exclamou o interlocutor. No meu tempo, tal não aconteceria!... Não haveria falta de medicamentos.

- Como assim?

- Ora, velhinho! No meu tempo não havia desfalques de penicilina. Podia haver, mas só de permanganato de potassa e nitrato de prata...

BOA VIZINHANÇA


O tampinha e o Piturelli (*), aguardavam, no corredor da Delegacia de Polícia, a chamada para entratem no gabinete do então Delegado de Polícia de Catanduva, o saudoso Dr. Máximo C.Camargo.

Aqueles dois tipos populares haviam tomado em excesso a "cangebrina" e foram pilhados, numa noite fria, domrindo nos taboleiros da Feira Livre. Um dos vigilantes noturnos, trouxe-os para o xadrez, obedecendo a ordenes terminantes de engaiolar os vagabundos, os suspeitos, enfim, os indivíduos que, sem residência fixa, freqüentavam, naquela época, as ruas da cidade.

E o Máximo, sonolento, na cadeira giratória, aspirando seu "Príncipe de Gales":

- Onde mora, Piturelli?

- A bem de ver, não tenho uma casa onde pernoitar. Aconteceu que costumo dormir na feira...

- Bem, bem. Não quero mais isto – respondeu enérgico o Máximo. Arruma um emprego, uma casa. Do contrário, eu te deporto.

E, virando-se para o outro:

- E você, tampinha? Onde é a sua residência?

- Minha residência? Ué, doutor! Eu moro em frente o Piturelli...

MANEIRA DE CONCORDAR

Dino Daliame, em 1945, tinha a sua garaparia instalada onde hoje se ergue o edifício do banco Antônio do Queiroz S. A.. Foi nesse ano que, de volta a S. Paulo, onde tratara de negócios, que apareceu com o braço numa tipóia. Havia sofrido um acidente na Capital. Um amigo, então, perguntou-lhe interessado:

- Que foi Dino? Você assim!...

- Pois é. Esperava por um bonde na Avenida S. João. Demorou, mas enfim apareceu. Cheio. Carregado de pingentes. Calculei que o bonde não pararia só para mim. E não parou mesmo. Quando, porém, me passou rente, pulei no estribo. - E errou o pulo? - Não. Peguei na muleta de um aleijado pensando que fosse o balaustre.

- É você acertou o pulo... Muito bem.

PÃO DURISMO

Há casos de pão durismo interessante. Um deles é este que passo a contar:

Depois de um acidente automobilístico nas proximidades de Mogi Mirim, um dos acidentados, homem rico e "mão-aberta" , conduzido ao hospital daquela cidade, necessitou de sangue. Apresentaram-se os doadores; ao primeiro, gratificou com mil cruzeiros; ao segundo, com quinhentos; ao tereceiro com duzentos; ao quarto com cem; ao quinto com cinqüenta; e ao sexto, quando já se sentia completamente restabelecido, com apenas vinte.

Naturalmente que isso causou estranheza ao médico que o assistia:

- Fenomenal!... Nunca esperava pelo êxito do seu restabelecimento! Surpreende-me, porém, a maneira como o senhor gratificou os doadores... principalmente os últimos que deveriam ganhar mais... teria se operado alguma modificação no seu organismo meu amigo?

- Ora, que dúvida – respondeu o ricaço. Os doadores não eram todos de Mogi? A medida que o sangue mogiano me foi me foi entrando nas veias... Ta compreendendo?

O "CABECINHA" DE OURO

Quando, em 1950, Hugo Borghi realizava comícios pelo Estado em favor de sua candidatura a governador, seus discursos eram sempre interrompidos pela "clack":

- Borghi! Borghi! Borghi!

Assim era em toda parte, assim foi em Xangrilá. Aqui, na Praça da República, depois de uma peroração aos demais candidatos e adversários, disse: "Precisamos de uma homem que saiba conduzir o Estado; que saiba comandá-lo; enfim, de um homem que tenha cabeça!"

A "Clack" então, quase toda corintiana, prorrompeu:

- Baltazar! Baltazar! Baltazar!...

AZAR DE FUMANTE

Vai para muitos anos. Leonardo Beni tinha uma fábrica de bebidas e, ele próprio, com o caminhão, distribuía seus produtos.

Certa feita, numa rodovia, faltou gasolina ao veículo. Deixou o carro e pôs-se a andar de volta a Catanduva, a fim de comprar o combustível.

No meio da caminhada puxou o caximbo de barro que então fumava. Mas não conseguiu acendê-lo. O vento soprava contra. Deu de costas, acendeu o caximbo e pos-se a andar.

Quando deu por si, estava novamente junto ao seu caminhão, abandonado na estrada...

ASSIM TAMBÉM EU FAÇO


Por muito tempo os cinemas locais não passaram por um melhoramento, de modo a agradar os seus "habitues". "Será pão-durismo dos empresários?" – indagavam alguns. E o tempo passou, até que foi inaugurada a tela panorâmica do Cine Bandeirantes.

Aconteceu que, depois, os freqüentadores daquela casa de diversões, quando iam ao "República", estranhavam a sua tela, achando-a pequena.

Passados mais uns dias, no salão de barbeiro, comentava-se:

- Como ficou bacana o "Bandeirantes"!...

- Em compensação – opinou o fígaro – a tela do "República" parece que ficou pequenininha...

O Marcelo (*) o viajante, que escutava a conversa, levantou a cara ensaboada e interveio:

- Parece, não. Ficou mesmo menor.

- Não diga!... – exclamaram todos.

- Batata – concluiu. Para se aumentar a tela do "Bandeirantes", o Joaquim (Crescêncio o proprietário), mandou cortar um pedaço da do "República" e o emendou na outra...

*NINGUÉM ESCAPA

Fama só, que são "pão duros". São até perdulários. Mas o caso foi que deslizava um grande filme na tela do Bandeirantes. Balcão, ingresso cinco cruzeiros e platéia oito. Por isso mesmo havia mais gente em cima do que em baixo. No meio da sessão, acotovelava-se nos balcões e um gajo perdeu o equilíbrio, vindo a se estatelar na platéia, soltando sangue pelo nariz e ouvidos, quebrando poltronas na queda. O lanterninha, preocupado, nada pode fazer. Correu ao proprietário do cinema, Manoel Crescêncio, que conversava com seu irmão Joaquim, no saguão. O serviçal correu para o Manoel a saber para qual hospital deveria mandar o acidentado: - Sô Manoel, o moço caiu lá de cima.... está estrebuchando...Que devo fazer? E o Manoel, com aquela calma que nunca perdeu, resolveu o assunto, falando pelo nariz: - qual foi a ordem que dei? Cobre-lhe a diferença de entrada...

*BOLA FORA

Quinze dias após as eleições presidenciais, o Xangrilá Esporte Clube, via seu quadro de futebol perder fragorosamente em seu próprio estádio. Os associados da entidade opinavam várias modificações na equipe. Um, mais pessimista, achava que só na linha atacante, quatro deveriam ser substituídos. Foi quando outro perguntou: - e quem vamos colocar ? O primeiro fazendo graça, respondeu: o Juscelino, o Juarez, o Jango e o Milton Campos... O outro riu amarelo mas voltou: e o Ademar e o Plínio ? Não podem ser aproveitados? Sim, prá pegar bolas atrás do gol...

PROPRIETÁRIO DE PADARIA
(humor leve da vida real)

Roberto Corrêa

Hoje fui comprar uns pãezinhos numa das padaria que frequento. Sabia que as duas irmãs tinham vendido o estabelecimento, mantido a duras penas. Simplesmente para confirmar perguntei ao caixa, que aparentava tudo para ser o dono : “ então o senhor é o novo proprietário ?” Com um sorriso irônico, meio apressado, respondeu: “proprietário não, o próprio otário.”

O VELHO TIO E O MEDO

Roberto Corrêa

Nos velhos tempos do século XX tio Otaviano, tido como impulsivo, tinha uma loja de armarinhos numa das grandes cidades do interior (ainda em desenvolvimento). Aconteceu, então, segundo soube, um pequeno episódio interessante e que pode ser encarado com certo humor. O bom tio, enquanto aguardava fregueses, no verão escaldante, costumava descansar em cadeira de balanço. Eis que um belo dia um viajante chega de sopetão e lhe apresenta uma cobrança. Diz ao surpreendido tio : “vim para receber, seu Otaviano”. Este levanta-se da sua cadeira meio assustado e responde : “espere um pouco aí que você vai ver”. E dirige-se para um cômodo no fundo da loja onde existia um grande cofre. Abre-o e dele retira uma moringa com água fresca e bebe antes de se dispor a providenciar o pagamento . O viajante se assustou com a movimentação rápida do comerciante e saiu às pressas pensando que o meu velho tio tivesse ido pegar um revolver... Bons tempos aqueles em que a violência parecia padronizada e podia virar anedota.

ANEDOTA SÍRIO-LIBANEZA

Roberto Corrêa

Naqueles velhos tempos, o filho de um comerciante sírio ou libanês residente no interior , precisou ir à São Paulo para fazer compras . Disse também ao pai que iria assistir a uma partida de futebol do time de preferência da família. Após as compras, no domingo foi ao futebol. A seguir passou um telegrama ao pai (era o meio preferido de comunicação da época) e para economizar utilizou apenas 5 letras “b”. O Pai recebeu o telegrama e precisou interpretá-lo para os amigos que estavam curiosos para entender o significado das 5 letras. Habibe, em seu telegrama quer dizer o dizer o seguinte, disse o pai: baciência babai balestra(balmeira) berdeu bartida.

MORADOR DE CONDOMINIO

Roberto Corrêa

Minha nora se encontrando com velha conhecida, após os cumprimentos iniciais , perguntou à amiga: “você ainda mora no condomínio “?
Ela respondeu sorrindo, não Judite “eu moro com demônios”.

SINAL DE FAX
(Fatos da vida real)

Roberto Corrêa

Você liga para a casa de um amigo afim de lhe enviar um “fax” de documento do interesse dele. A empregada atende o telefone com voz límpida e clara. Pergunto pelo Dr. Antônio. Nem ele nem a esposa estão. Indago para atenciosa empregada: “você sabe dar o sinal de fax ?” Ela toda sem jeito, meio atrapalhada reponde “fax” ?!... Está bom, digo a seguir, ligarei mais tarde...

O NOIVO DA MINHA IRMÃ
(Fatos da vida real)

Roberto Corrêa

Há muitos anos atrás, estava em S. Paulo para atender entrevista em escritório de advocacia. Passava pela rua Barão de Itapetininga, quando cruzei com o Santos, que fora noivo de uma das minhas irmãs. Dado a pressa e o momento, fingi que não o vi, para não me atrasar. Fui para a entrevista e depois com bastante calma, retornei para o Largo S. Francisco afim de tomar o meu ônibus para o local onde me hospedara . Qual a minha surpresa ao me deparar com Santos na minha frente na fila. Então, eu lhe dei um apertão com os dois braços e disse: “oi, Santos, como vai”. O cara se virou e me disse : “eu não sou Santos” . Fiquei então desmontado e contei mil histórias , inclusive que morava em Botucatu e estava em S. Paulo para uma entrevista. Aí essa pessoa, que declinou o seu nome disse que tinha filhos em Botucatu e prometeu me visitar quando lá estivesse. Assim aconteceu. Bons tempos aqueles.

COLEGA ASSASSINO
(humor negro)

Roberto Corrêa

Em tempos idos do século passado, morei em Botucatu e durante alguns meses trabalhei em S. Paulo, viajando semanalmente.
Numa sexta-feira, satisfeito por retornar ao lar, num daqueles ônibus lotados da Capital, fui interpelado por uma pessoa de maneira um tanto agressiva : “o que sr. está me olhando : desde ontem está me encarando”. Não sabia o que responder, mas tentando contornar o assunto, procurei atenuar dizendo “talvez seja algum amigo, algum conhecido”. O cidadão me respondeu : “não sou amigo não.” Então me esquivei, pensando : não vou estragar o meu dia, tão feliz estou de ir para casa.
O cidadão de maus bofes desceu no ponto do antigo Paramount e eu no Largo de S. Francisco. Passei em um cartório e fui ao fórum levar um documento. Quando cheguei ao primeiro andar , vi o cidadão sentado em um dos bancos do corredor e, intrigado com a coincidência do reencontro, resolvi dar-lhe um susto e disse-lhe (naquele tempo não havia assaltos e não se falava em violência): “ estou vendo que você também é advogado. Aquele nosso bate-boca no ônibus foi muito desagradável; sorte que não estava armado, pois já fui delegado e a coisa poderia não terminar bem”. Então o cara me respondeu : “ e eu já mandei dois para o lado de lá.” Aí percebi que o cara poderia ser perigoso mesmo e tratei de encerrar a conversa e me afastar...

*SACRIFICIO CONJUGAL

J. M. Jr. o fiscal de caça e pesca mais ativo do Estado, contou-nos que o boêmio sempre chegava tarde em casa, a despeito dos constantes protestos da patroa. Afinal, ela tinha as suas razões. Assim foi que pensou num dia em que, de leve, descalçava as botinas, à cinco horas da manhã, para se deitar. Neste momento a mulher acordou: então isso são horas?... E ele, então, calçando as botinas novamente: - pois é. Hoje eu quero fazer a feira mais cedo.... E foi.

18 MOTIVOS
(senso de humor de mineiro antigo)

Roberto Corrêa

Naqueles velhos tempos, começo do século XX, contou-me um tio que, na cidade onde moravam em Minas, reuniam-se alguns amigos para jogar o carteado quase todas as noites. O Alfredo Branco não costumava faltar. Mas faltou um dia. Os seus companheiros, então, lhe reservaram o lugar, mas ele não apareceu mesmo. No dia seguinte no mesmo local e hora todos estavam reunidos e ali surgiu o Alfredo Branco . Então, Alfredo, por que não veio ôntem ? Guardamos o seu lugar. O Alfredo respondeu : não vim por 18 motivos : primeiro falta de dinheiro, segundo a minha mulher... Não precisa contar o resto Alfredo: sem dinheiro, nada feito.

 


DISTRAÇÃO

Naquela noite de baile no “Tênis”, fazia-se churrasco na cozinha, e uma aragem contrária trazia toda a fumaça para o salão de danças, tornando o ambiente quase que insuportável se não fosse o cheirinho gostoso de carne assada.
Moacyr L. reclamou ao Gentil de Ângelo:
- Você precisa dar um jeito nisso.
- E é já – respondeu o Gentilino. Vou falar com o Presidente.
E foi. Mas... deu uns passos e voltou para o Moacyr:
- Caramba! Você sabe que o Presidente do Clube sou eu mesmo? Que cabeça a minha!...

VERDADE NUA E CRUA

Num grupo de desocupados, falava-se mal da vida alheia, coisa muito natural nessas pessoas. Citaram-se nomes de todos que deram "tombos" na praça e até de outros que poderiam cair. Ninguém escapou. Repertório esgotado, um dos circunstantes, que até então estivera silencioso, entrou:
- Sabem que o Aparecido, do Banco do Estado, está também levando uma vida de altos e baixos, todos os dias? Coitado!...
- Ora, naturalmente.
- Naturalmente?
- Sim. Pois ele não é o ascensorista do Edifício do Banco?

HISTÓRIA "SUINA"

Sempre eles, Chafic M. (Boquita), Necker A. (Pedrada) e Arlindo I. (Sabonete), os três gordos e inseparáveis amigos de outros tempos, e pregarem peças, mutuamente, uns aos outros.
Certa vez, Boquita prometeu ao Sabonete, que lhe daria um leitão de raça, inexistente por estas bandas:
- Vou para São Paulo e de lá lhe mandarei o leitão que lhe prometi.
- Não é sem tempo - respondeu Sabonete.
Realmente, passados alguns dias, Arlindo I. recebera o seguinte telegrama: "Espere comboio seis e vinte leitão prometido".
Antes da hora, já o Arlindo aguardava a chegada do rico suino; e quando a composição ganhou a plataforma, afobado, correu de um lado para outro a topar o vagão que trazia o gordo animal. Em vão, porém, quedou-se, desanimado, num banco, enxugando o suor, depois de larga procura, pensando: "O Boquita pregou-ne outra. O leitão não veio."
Mas, sentiu mão pesada no ombro, acompanhada de uma gargalhada. Era o Necker:
- Vamos embora, homem! O leitão sou eu!...

TODOS ERAM IGUAIS!

Foi há muitos anos. Na sala de audiências do Forum, Pedro N. e Mayr C., advogados de uma das partes em litígio, ficaram encabulados com a conversa comprida sustentada pelo Promotor Público de então, o Dr. Francisco P.. Nada ficou resolvido. Juiz e Promotor foram para outra sala e os dois causídicos, um a olhar para o outro, ficaram sozinhos:
MAYR: - que sujeito esse Chico!...
PEDRO: - Chatíssimo.
MAYR: - O pior é que é nosso colega...

 

BRINCAR COM AS CRIANÇAS...

Foi no "Dia do Gráfico", de 1956, na oficina tpográfica do Mozart da Costa N., quando, com os gráficos tomávamos delicioso chope. Havia pessoas não pertencentes à classe. A um canto, conversavam Nair F., João Á. , que se fazia acompanhar de sua filhinha Conceição, Lourival N. e Octávio M. (Sinhô).
- Como se chama, você, beleza?
- Conceição. E o senhor?
- Sinhozinho das Moças.
Ante a admiração da menin, Lourival confirmou:
- É mesmo. Sinhozinho das moças.
Conçeição reparou naquele feio bigode branco do Sinhô e respondeu "na lata":
- Duvido.

"NÃO TE PREOCUPES"

Caetano M., o infatigável e ativo viajante da Loja da China, quando não nos tras um brinquedo excêntrico, sempre nos reserva a última piada criada pelo fabuloso espírito hilariante do carioca.
Em 1951 - contou-nos - grassava a terrível "coreana" no Rio de Janeiro, a febre que tantas vidas aniquilou, naquele ano.
O Manoel, português, foi lá, em vésperas de Carnaval, tratar de uns negócios. Lá, o tempo já estava "quente" e Manoel caiu no samba. Passou o Carnaval e mais uns dias. Que iria dizer à Maria, sua esposa, que deixara em São Paulo? Resolveu telefonar-lhe:
- Óh Maria. Sabes por que ainda não fui praí?
- Não. Não sei - responeu Maria na outra ponta da linha.
- É porque estou com a coreana...
- Ora, Manoel!... Não te preocupes. Pois cá estou eu com o Juquim...

EDUCAÇÃO FINA...

Às vésperas da inauguração do Restaurante "A Toca", seu proprietário, o Baiano, não se cansava de se gabar:
- Vocês vão ver! Uma coisa louca! Serviço rápido e impecável. Garçons já contratados, de finíssima educação.
De fato, na abertura, sentamos a uma das mesas e, lépido, o garçon "Ventania", recentemente vindo de Minas, escostou-se à mesa e perguntou ao Grandão (Fortunato da Graça):
- Que é que a sua solitária vai querê?

COMPARAÇÃO PERFEITA

Foi no domingo de Carnaval de 1951. O Dr. Cervantes A., fantasiado de mulher, dava a impressão de ter um corpo muito maior do que tem.
Ao entrar n' "A Toca", foi festiva e carnavalescamente recebido pelos seus amigos da "mesa redonda". Sossegados, a saborear o uisque, Lourival N. virou-se para o facultativo e perguntou-lhe:
- Vitória Régia: onde vai dançar hoje?
- Em todos os clubes.
Mas, Cervantes ficou encabulado com aquele nome de "Vitória Régia", que continuava a ser repetido, constantemente, na conversa. Assim é que resolveu perguntar:
- Lourival, por que me chama de Vitória Régia?
- Porque você é grande e vive sempre na água...


COMPLEXO LOIRO

quando se inaugurou o Grande Hotel e Cassino "Termas de Ibirá", Joaquim L., um dos seus proprietários, contratou para abrilhantar as reuniões do "grill-room", o famoso conjunto de Francisco P., um dos melhores pistonistas que pisou por estas bandas.
Mas Chico P. andava muito triste e quando estava no trabalho, para bem executá-lo, já se encontrava um tanto "chupado". Tinha xodó pelas loiras, mas sempre desprezado por elas.
Um dia, quando bebia, antes de entrar em serviço, Joaquim admirou-se de vê-lo a beijar, insistentemente, uma garrafa de clara cerveja , e não resistiu à pergunta:
- Que é isso, Chico Penha? Por que está a beijar a garrafa?
- Porque esta é a única loira que não me trai...

PRA BAIXO O SANTO AJUDA...

Em 1951, o Sr. João A., gerente da Telefônica Nacional Ltda., recebeu em seu gabinete de trabalho, enfezado cliente, que não se conformava com os preços cobrados pela referida empresa nas ligações interurbanas:
- O senhor poderia me explicar por que uma ligação de São Paulo pra Xangrilá custou-me apenas vinte cruzeiros e outra, daqui pra lá, com a mesma duração de tempo, custou-me sessenta cruzeiros?
- Muito fácil, meu senhor - respondeu o gerente. É que, daqui pra lá, é só subida...


"EU BEM QUE DESCONFIAVA..."

Otávio M., um dos gerentes de Banco de mais "humour" em Xangrilá, sempre tem uma nova para nos contar.
Há pouco, contou-me que um Toledo P., caboclo destes de quatrocentos anos, da família tão rica como tradicional de São Paulo, estava receioso de viajar para a Capital com a esposa, tal a onda de assaltos que, então, como agora, grassava na Paulicéia.
- Levemos a garrucha Tonho - opinou a mulher.
- Diabo é que a polícia tá sempre revistando a gente... mas vâmo levá - concordou o marido.
Meteu a arma na cintura, tomaram assento no comboio e lá se foram para S. Paulo.
Pouco o trem de ferro tinha caminhado, quando um homem fardado, da outra ponta do vagão, gritou:
- Revistas!
E o Piza já apreensivo, para a mulher:
- Tá veno! Num falei que eles revistavam?
Não sabia que fazer com a garrucha. E o homem fardado, continuou:
- Polícia! (publicação policial).
- Ih, muié, é a polícia memo!...
E o homem de farda vinha chegando:
- Detetive! (outra publicação).
- Muié, toma a garrucha. Senta em cima dela,
Aí, o vendedor de revistas junto ao Piza disse:
- "Eu sei tudo"...
E o Piza não teve outro remédio:
- Muié, entrega a garrucha pro soldado...


ESCULHAMBOU A HOMENAGEM!

Após a eleição da Diretoria da Orquestra Sinfônica, 22 horas do dia 28 de fevereiro, o presidente eleito da entidade, Maurício M. , convidou os associados para uma chopada n' "A Paulicéia".
Reunidos, comentavam gostos musicais, lembrando-se, então, a famosa"Oitava".
Foi quando Alberto Lerro, que se achava em uma das mesas próximas sugeriu ao Sr. Geraldo S., proprietário do estabelecimento, tocasse algo na vitrola:
- "Seu" Geraldo, numa homenagem à "Sinfônica", seria bom ouvirmos uma boa peça.
- Perfeitamente. Qual disco que prefere?
- De preferência, música fina.
- Então, vou "botá" a "Ôi, tava peneirando..."


CULTURA ARTÍSTICA: - MATO.

Nas férias de 1956, o Américo, do Banco Brasileiro, foi "empombado" para Santos, cônscio de estar em dia com o mundo social da grande cidade praiana.
Mas o Pio, do Banco do Brasil, ponderou: "O Américo é do nosso "society", não estando porém, acostumado aos grandes centros. Creio mesmo, que lhe falta um pouco de verniz..."
Ante essa afirmação, procuramos sondar o nosso informante, mais profundamente. E ele não titubeou:
- "Escute minha história: O Américo chegou em Santos, cheio de empáfias e de importâncias. Chegou até a me diminuir na presença de um amigo da alta sociedade local. Fiquei estarrecido!... A certa hora, lembrou o Américo que precisava comprar um disco e o amigo que lhe apresentei, levou-nos, à melhor casa de Santos. Falou ao Gerente, que o atendeu prestimoso... Também, o Américo, vestia-se tão impecavelmente! Disse, então, o Américo:
- Queria a "Oitava".
O Gerente da casa ordenou ao empregado:
- Ponha na vitrola a Oitava de Beethoven.
O Américo ouviu a peça fingindo possuir cultura artística. Mas, realmente, não era o disco do seu agrado. Finalmente, ante mim e o amigo que aguardava sua decião para irmos embora, disse ao empregado da casa de músicas:
- Não. Não é essa a "Oitava" que queria. Vê lá se a encontra. A que eu quero é essa: (e cantarolou).
- "Oi, tava peneirando, ôi, tava peneirando..."


"ETA PEIXE DE SORTE"

No período da última Grande Guerra, sofremos racionamento de muitos gêneros de primeira necessidade.
Em Xangrilá, o Prefeito de então, Sílvio S. conduziu-se tão bem, que a população não se ressentiu muito dos rigores da medida. Entretanto, sempre havia os do "contra", que inventavam histórias. E esta, foi uma delas:
Pescadores retiraram do rio, um grande peixe. Trataram de prepará-lo para a primeira refeição. Mas não havia gordura. Nem óleo. Nem farinha. Nem sal. Que fazer? Jorgaram o peixe de volta ao rio. Então o felizardo, mergulho, voltou à tona e gritou em direção aos pescadores:
- Viva o Sílvio S.!...


"CA... CA... FAGESTE"

Marcílio P. - o notável Marcílio do 2º Ofício - era gago, quando mocinho. Conseguiu, porém, por si próprio, eliminar a deficiência vocal.
Como todos os gagos, naquela época Marcílio não gostava de brincadeiras que envolvessem a sua gagueira. E o nosso homem era meio "brabo".
Certa feita, o garoto do tintureiro foi entregar um terno de roupa ao Marcílio. Ignorando o endereço residencial, o menino, que também era gago, foi ter ao Cartório, onde foi atendido pelo próprio Marcílio:
- É a... aqui que... que mo... mora o "Seu... Seu" Mar... Marcí... iii... lio?
O Marcílio, excepcionalmente, não se zangou, embora desconfiado de que se tratasse de algum "trote" encomendado por um amigo. E respondeu:
- É. Vá en... en... tre... eee... gar na o... ooo... outra... por... porta.
Mas aí, o garoto, tomando a resposta como zombaria, retrucou, ainda mis gago:
- O se... se... eee.. nhor não quer ir to... to... to... ooo... mar ba... ban... nho, pri... pri... me... meiro?


PERNAS PRA QUE TE QUERO!

Num dia de inverno de 1955, o José C., vulgo José do Saco, de Irapuã, apoiado em suas duas muletas, veio até Xangrilá recolher algumas moedas da caridade pública. Apareceu no bar do Chico M. e chorou "pitangas". O Sr. José R. M., caridoso como é, logo estendeu ao pobre uma cédula de dois cruzeiros, o suficiente para contentar o pedinte, que se aprestava a ir ao ponto do ônibus, de retorno à sua cidade.
Nesse momento, a "jardineira" passava pela rua, e o homem de muletas achou impossível alcançá-la, embora gritasse ao motorista, para que parasse o veículo. Ao mesmo tempo o Sr. Domingos M. Filho, estendia outra esmola ao Saco. Este, não sabia o que fazer, vendo o ônibus em movimento: se agradecia ou se corria atrás do carro. Para agradecer, perderia a condução e para alcançá-la, era quase impossível, de muletas. Tomou, então, uma resolução que embasbacou os presentes. Juntando as muletas, colocou-as sob o sovaco esquerdo, levantou braço direito à moda integralista, tudo num relance, e gritou, já correndo e alcançando o ônibus de Urupês:
- Viva o Padre de Tambaú!.

"VENHAM A NÓS..."

Por volta de 1935, cidadãos xangrilaenses cuidavam de fundar uma associação assistencial, iniciativa essa que, em seguida, se concretizou com o surgimento da Sociedade de São Vicente de Paulo.
Na reunião preliminar, achavam-se presentes, entre outros, Abel P.i, Gustavo M., João A. T. e Fioravante S.
Logo, apresentou-se um problema a resolver: havia três terrenos oferecidos como donativo à novel instituição. Optava-se ora por um, ora por outro, conforme a sua localização. Mas não se chegava a um acordo. E a discussão prolongava a reunião. Foi quando, já tarde, apareceu o Monsenhor Albino que indagou do que estava se passando. Ciente, opinou:
- Pelo que se vê, nada há de difícil no caso.
- ?!...
- Aceitam-se os três, senhores...



BOMBEIROS PREVENIDOS

Era muito esperada a reunião do Diretório Municipal do PSP, prevendo-se que seus próceres iriam opor resistência à tentatva de coligação do deputado udenista Antonio M.
A reunião realizou-se no escritório do Sr. Antonio S. onde, a um canto, notavam-se, agrupados, numeorosos extintores de incêndio.
O Sr. Geraldo T., admirou-se:
- Pra que tanto desses "troços"?
E o Chico Folia (Francisco Antônio C.), respondeu ao pé da letra:
- Aí que está a "tecnica" do Antonio S. Se o Antonio M. (Bacuráu) resolver queimar o PSP, aí está a defesa...


TUDO EMPATADO

O Zico, fiscal de caça e pesca, estava "dando duro". Batia todos os rios e matas da região. Quem não possuisse os devidos documentos de licença, não caçava e não pescava, e era severamente punido.
No "Cubatão", topou com um "tabaréu" que "dormia" na vara; e, enérgico, para ele:
- Oh moço. Quero ver os seus documentos. Sem licença não é permitida a pesca.
- Discurpe. Mais eu num tenho papé ninhum aqui.
E o Zico sacava o talão de autos de multa, quando o caboclo resolveu:
- E pode o sinhô me dizê quem é vassuncê?
- Eu sou o fiscal.
- Ah! E Mecê tem os documentos pra me mostrá?
Enfezado e afoito, o Zico remexeu os bolsos mas não encontrou papel algum de identificação.
- Diabo! Esqueci tudo em casa!...
- Pois é. Nóis tamo taco a taco. Num é?

CADA QUAL NO SEU LUGAR

Por uma feliz coincidência, Carlos M., Tulio T. e Geraldo C. , os mais magros de Xangrilá , encontraram-se em São Paulo, certa vez, no Bar Viaduto. Depois do aperitivo, a caminho da praça da Sé, notaram fila enorme à frente da Farmácia Baruel. Era o povo que se pesava, nas balanças. E os três também entraram no rabo da fila.
O empregado da farmácia, solícito, aproximou-se dos xangrilaenses. E, percebendo que eram do interior:
- Os senhores, aí. Vão pesar?
- Vamos, responderam.
- Então, é favor tomar aquela outra fila.
- Por quê?
- Temos duas balanças.
- Mas não podemos usar esta?
- Claro que não. Está é só para carne; a balança para ossos é a outra...

O PÁSSARO NÃO CANTOU

Um cidadão, desses muitos que, diariamente empinam "papagáios" e trocam "cebolas" nos Bancos, certa feita encontrou com um "irmão sofredor" e contou-lhe que os seus apuros, tinham alcançado o climax:
- Não imagina como me sentia. Não tinha mais onde ir: o gentilino (gerente do banco comercial) estava pra São Paulo, o Américo (do Brasileiro) "estava de inspetor"; o Dácio (do Comércio e Indústria) "recebera novas ordens"; o Ragonezzi (do Moreira Salles), só estava atendendo negócios de café; e assim por diante. Mas, enfim, restava-me ainda ir ao Banco do Brasil, a ver que o Pio (gerente), poderia fazer.
- E então?
- Fui. Contei-lhe uma história comprida... aquela que você conhece...
- E ele?
- Ounvindo, ouvindo. Continuei. Finalmente...
- Deu-lhe o dinheiro.
- Qual o quê. Nem um pio...

ESTAVA PERTO DO ALÉM...

Rotarianos de Xangrilá , iam participar da conferência de Poços de Caldas, realizada há pouco. Num dos carros, dirigido pelo Totó, viajava, na frente, um casal. Atrás, muito cansado, depois de ma semana cheia de tarefas, ia o Pedro Além, apanhado pelos companheiros em hora que sua barba, preta e cerrada, estava ainda por fazer.
Quando o carro atingiu São Carlos, para melhor se certificarem da estrada que deveriam tomar para Poços, resolveram indagar do caminho a um guarda. Nessa hora, Além já dormia solto, no banco traseiro. Informou o guarda:
- O senhor virá à esquerda e pega a estrada para Descalvado...
Mas, depois de falar com o condutor, o guarda debruçou-se na porta traseira. E ao ver o Além dormindo, barbudo, daquele jeito, exclamou, penalizado:
- Coitadinho! Precisa mesmo ir pra Tambaú!... (*)

(*) Onde o Padre Donizzette fazia curas milagrosas.

CASA ABANDONADA...

Mil e um instrumentos toca o Totó Z. Faz parte de um cem número de firmas e tem, além disso, o cargo de Diretor de Obras da Prefeitura Municipal e mais o seu escritório de engenharia. Neste, nunca é encontrado, como não o é em outros locais. Vive em roda viva. E para pegá-lo, é preciso agarrá-lo em trânsito por uma das vias da cidade. Do contrário, o negócio não se resolve. E não falassemos nisso apenas, teriamos a sua participação em orgãos diretivos de várias entidades de Xangrilá a exigir sua palavra abalisada nas decisões.
Assim, como sua ausência no escritório de engenharia era permanente, os clientes deixaram de procurá-lo ali. E, num dia em que o Totó já não mais se aguentava de cansaço, resolveu ele tirar uma folga. Aconteceu que um seu companheiro de rotary, o Jovino V., mostrou-lhe a inconveniência, perguntando-lhe:
- Está certo, depois destas suas razões. Mas, indago: Onde iria você se esconder com tantos clientes à sua procura?
- Muito fácil. No meu escritório...

UM HOMEM DE EXPEDIENTE

Said T. e mais meia dúzia de amigos, possuem uma casa de campo em Ubatuba, frente ao mar, numa enseada maravilhosa, com penhascos e florestas atrás da espaçosa habitação, um lugar lindo e perigoso ao mesmo tempo. Ali, os sócios da casa e convidados fazem "weekends". Passeiam, bebem e comem.
Sílvio N. e Carlos K. , haviam saído a passear pelos rochedos e matas. Deviam regressar às 11 horas para o almoço. Onze horas, nada deles aparecerem. 12 horas, nem sinal; às 13, reinava inquietação entre os amigos que haviam ficado. Aí, Said T. aventou: "Vamos procurar os homens." E foram.
Chico N. ficou. Silenciosamente, a um canto, saboreava seu uisque, apreensivo tambpem, não tanto como os demais, que já se sentiam com bastante fome.
Enfim, às 14 horas, depois de sondagens pelas proximiddes, sem qualquer resultado, acorreram ao Chico, na certeza de que, no seu isolamento, havia encontrado uma solução:
- Chico, que devemos fazer? Não apareceram...
- Calma, gente, calma. Agora, só resta emendar a mesa pra dois defuntos...

OS SANTOS GUARDARAM...

Um escândalo naquele ano! Os estudantes do Arcada, para melhor simbolizar a “peruada”, “abafaram” 40 perús das granjas paulistanas e ceiaram à larga! ...
Os jornais comentaram a displiscência dos policiais da Capital e de alguns que tomaram parte da ceia!
Ninguém falou do assunto. Mas o João Gandaia, porta voz de todas atualidades do Café da Esquina, “lascou” esta numa roda muda e ansiosa de novidades:
- O Padre Albino é um camarada de sorte!...
- Que tem o sacerdote, que ora está na Europa, com o caso dos estudantes da Faculdade
de Direito?
- Pois é. Está lá na Europa e nada aconteceu às centenas de seus perus... ** Bons católicos os nossos...


** O Sacerdote tinha uma criação de perus.

OSSOS E OSSOS DO OFÍCIO

Foi naquela efervescência política, que Dácio C. de A. inaugurando a fábrica de
Adubos, andava louco em busca de matéria-prima: ossos.
Eu, Geraldo Corrêa, depois de ter perdido o cargo, chagava atrasado de São Paulo, justificando ao Dácio o atraso do pagamento do “papagaio” vencido na ausência:
- Foi o diabo, Dácio! Seiscentos milhões de piolhos! Perdi o trem, ontem, na Luz... perdi, como vê, tudo: a cadeira de Filosofia, no Ginásio, as banhas, o cabelo e agora o trem...
- Pior será quando você souber que vai perder mais, se não pagar o “papagaio”... Você
têm bastante osso...
- Não vêm não, velhinho!... Vai querer iniciar uma indústria com o pior material do mercado?

FORÇA DO HÁBITO

E ele voltaria?
Era por volta de 1948, em plena campanha eleitoral. Getulio estava no cartaz e em toda parte
lia-se: “ELE VOLTARÁ”.
Francisco G., achava-se entusiasmado, pela cidade, falando do seu caríssimo compadre, o ex-Presidente. Em certos momentos, absorvia-se e dava respostas desconexas. Foi quando, um cliente de seu filho, Dr. Daniel, perguntou-lhe:
- Não sabe quando o Dr. Daniel voltará de São Paulo?
- Não. Sei que “Ele voltará”...

“COMO BARBEIRO, EU ME BASTO”

S. Basto, foi um dos mais proeminentes cidadãos da nossa comunidade, pela sua cultura, pelo seu caráter, pela sua elevada formação moral. Como bancário, como dedicado causídico ou como advogado do Banco do Brasil, deixou rasgos notáveis da sua maneira de agir. Excessivamente franco e modesto, não usava de meias-medidas para fazer as coisas.
Uma vez disse a um usuário, trajado maltrapilhamente e que possuía um montão de dinheiro no banco: “Porque você não põe no prego a sua bengala?” E como o miserável dissesse que o madeiro era para espantar os cachorros, explicou-lhe: “Os homens apesar de menos inteligentes que os cães, ainda alguns, se chegam a você. Mas cachorro!... deve fugir...”
Era franco consigo mesmo, sem ser cultivador do super ego, até ao contrário, feria, às vezes, a sua própria modéstia.
Temos este caso para exemplificar. Depois de uma no que comprara e guiava seu carro, estranharam seus amigos, porque nunca parava à porta da sua residência, sem primeiro fazer toda uma volta no quarteirão. Ainda mais que morava numa esquina (onde hoje residia seu colega Ítalo Z.)
- Muito fácil. – explicou. Já não sou bom motorista. Parar o carro na “mão” certa, terei que usar a “marcha-a-ré”...
- E daí?
- Daí... embora mal, vou sempre em frente. Nunca andei de fasto. A “marcha-a-ré” do meu
carro está novinha, novinha...


QUEM BEBE ENXERGA MAIS

O Milton D.A., compareceu ao casamento (8-1-1956), do seu amigo Acácio de O. S. Filho (Acacinho), no seu impecável 120. Com outros amigos, tomaram uma mesa no grande quintal do Hotel Acácio. Vieram os comestíveis e a cerveja gelada. Fazia um calor de oitocentos capetas, como diz o romancista francês Paulo de Kock. Mas o Milton D.A., abanava-se e sorvia delicadamente um golezinho de Brahma, mantendo-se sempre naquele seu peculiar aplombe.
Depois, veio a champanha. O Milton, bebia. Outras cervejas. E nada de chuva para amainar o calor. Foi quando o seu companheiro de mesa Dario B., olhando para o alto, disse:
- Hoje não chove. A noite está linda, céu limpo e estrelado...
- Hoje chove. Insistiu Milton.
- Qual!... – admiraram todos a insistência do “Brummel”.
Passados alguns minutos, quando já falavam de outros assuntos, o Milton cortou a conversa
e exclamou vitorioso:
- Não disse que chovia?
- Como? – indagaram. Já está?
- Não está. Mas vai chover. Não vêem que já está relampejando?
Era o Biloti ou o Edward, fotógrafos, que batiam “flashs, no salão de festas. E, para fora,
vinha aquele clarão...

AS MUSAS TAMBÉM ENCHEM

Ia animada a “boite” da Toca (Boite paletó – porque só dava homem), com o trio “Melodias” musiqueando o ambiente com boleros, mambos, etc.
O Dr. De la Mancha, que se mete a poeta, cumprimentou os presentes, chegou-se à “mesa redonda” ingeriu três doses de uísque puro e falou:
- Como os amigos não ignoram, sou o maior poeta do País. E seria do mundo se não
fossem os meus múltiplos afazeres comerciais, agrícolas e industriais que envolvem interesses financeiros tão grandes a ponto de não me sobrar tempo para dedicar –me às Musas... (também, só o Musa (*) já me enche tanto...)
A seguir, deu “boa noite” a todos e retirou-se, sem se lembrar de pagar as três doses de
uísque. No dia seguinte, sob os lençóis, De la Mancha. recebia um bilhete, que dizia:
“Impressões do Musa a respeito de suas Musas:
Cabeça Oca,
Gaita pouca,
Vaidade louca!

(*) Prof. N. M. Musa

ENFIM, COLHEU-SE FUMO E CEVADA

Em 1917, previa-se grande futuro à cultura do algodão. Em Xangrilá , cogitou-se da organização de uma sociedade para o plantio de “Ouro Branco”. Entre os velhos moradores da cidade que deveriam fazer parte da organização, apareciam os nomes do engenheiro Galazzi e do Cap. F. M., este último, então, delegado de polícia por designação do governo estadual e proprietário da “Pensão Florentino”, situada onde se encontra hoje a Coletoria Federal, “a Rua Pernambuco.
Galazzi, foi quem teve a idéia da fundação da entidade. Todos os dia, ia à pensão ler jornais e se inteirar dos preços do mercado do algodão. Comunicou ao florentino a idéia de plantar algodão e e de fundar sociedade. Teve pronto apoio de Florentino, que disse: “Vamos”. Tratou-se, em seguida, dos papéis da firma e dos cálculos da área a ser comprada e cultivada. Fez-se também, conta dos lucros futuros. Enquanto decorriam esses trabalhos, bebiam cerveja “Fidalga” e fumavam charutos “Havana”. Enfim, organizou-se a sociedade após muitas “Fidalgas” e “Havanas”. No dia seguinte a essa conclusão, os jornais anunciavam nova alta do algodão. Houve, então, novas reuniões com cervejas e charutos, que se repetiram por meses.
Ao tempo de escolher o terreno para compra, porque a época de semeadura era chegada, discordaram os membros da sociedade quanto ao número de alqueires a serem adquiridos. Daí, após discussões, dissoulveu-se a sociedade, sem nada realizado. Motivo: não havia dinheiro para a compra de tanta terra.
Passados uns dias, Florentino argumentou com o engenheiro:
- Galazzi: o mal nosso foram a cerveja e os charutos...
- Por quê?
- Porque o dinheiro da cerveja e dos charutos, dava pra comprar as terras...


“COMO EU SOFRI!”

Foi também num começo de ano. Após muitas festas e “bebes” Silvio J., o dedicado e eficiente escrivão da Coletoria Federal de Xangrilá, embora tivesse “matando o bicho” suavemente, chegara em casa “bombardeado”.
Ao deitar, vestiu um pijama novo, cujo paletó lhe assentava muito bem. As calças, porém, eram muito largas. Não percebera isso. Tanto que, ao vesti-las, magro como o autor destas linhas, enfiou ambas as pernas numa só parte das calças. E, “chumbado” como estava, adormeceu profundamente.
De manhã, quando já se fazia claro o dormitório, acordou sob o horrível estado de ressaca, corpo dolorido e gosto de cabo de guarda chuva na boca. Isso não foi nada. Seus olhos se arregalaram desmesuradamente, cheios de espanto. Que vira?
Da borda da cama, a outra perna vazia do pijama caia...
- Foi, então, que um grito de desespero lhe escapou:
- Meu Deus! ... Estou aleijado!

HOMEM E ROUPAS TROCADAS

Aconteceu nos tempos de Ary M.i e Raul T., quando ambos batiam papo à porta do Café de Esquina. A conversa arrastava-se displicente quando passou um desses cidadãos multi-milionários que, seja por pão-durismo ou excentricidade, vestem-se como indigentes:
- Olhe fulano! Observou o Ary. Quem o visse pela primeira vez, jamais adivinharia que é
um tubarão, pensaria certamente que é um mendigo...
- Em compensação, retrucou o Raul fitando de alto a abaixo o cintilante terno de linho 120 do Ary – em compensação, quem visse você pela primeira vez jamais adivinharia que você é um pronto!

DEFENDENDO O SEU

Aconteceu no banquete com que a Associação de Medicina homenageou ilustre professor da Capital.
Fomos representqandoa imprensa e caímos na asneira de erguer um brinde:
- À saúde!
- Não seja inconveniente, Geraldo! – explodiu o Dr. José P. Entre médicos é uma
blasfêmia um brinde como esse! E alçando majestosamente a taça de chamapanha, estrugiu:
- À doença!!!

CADA QUAL COM SUA ORIGEM

Regressando de São Paulo, onde integrou a comissão que tratou junto às altas autoridades estaduais, de um “caso” do Colégio Estadual, o Dr. Ítalo Z., entre outras piadas, trouxe-nos esta preciosidade:
Estava o general-vice Porfírio da Paz (como diz o camarada Lorotoff) numa reunião de grandes figurões que alardeavam descendência ilustre, com alusões a árvores genealógicas seculares. Um vinha, em linha reta, do tronco da família do Barão X; outro descendia da Duquesa Y; e ainda outro tivera por ascendentes os mui nobres Condes fulanos de tal.
A certa altura perguntaram ao Porfírio qual a sua ilustre origem. E ele, muito ufano: - Conhecem aquele hino que diz: Salve! Lindo pendão da esperança! Salve! Símbolo augusto da paz! Pois esse Augusto da Paz é o tronco da minha árvore genealógica.

O PIO SERVIU DE PIADA

O almoço com que as classes produtoras de Xangrilá homenagearam certa ocasião o Sr. João D. P., presidente da Associação Comercial de São Paulo, teve de ser antecipado de uma hora, em virtude do conhecido líder das classes conservadoras de ter de regressar à capital pelo avião das 14:30h. Em conseqüência os organizadores da homenagem tiveram de se desdobrar, lançando mão do telefone para avisar a turma de que o ágape seria às 12 e não às 13 horas.
No Grande Hotel, quando os convivas se encaminhavam para o restaurante, alguns temendo que fosse inexpressivo o comparecimento, aludiam ao “trabalho telefônico” da manhã. E o Pio, essa simpatia do Banco do Brasil, dizia, muito compenetrado:
- Você não calculam que desfile de telefonemas tive de atender hoje. Afinal eu não tinha
Não tinha nada com o peixe, mas é claro que fui dando a todos a informação de que o almoço seria ao meio dia.
Mais atrás, na fila em movimento no corredor, o Anérico, essa simpatia do Banco Brasileiro, (tratamento igual para os dois personagens) escangalhava-se de rir. E explicava:
- Fui eu quem mandou a turma telefonar. Desta vez consegui “encher” o Pio.

FELICIDADE POR ATACADO

Numa tarde de 1949, Nestor G. B., diretor do Aero Clube de Xangrilá e já naquele tempo piloto brevetado pela entidade, realizava um dos seus vôos costumeiros, levando no “piper” de prefixo PP-TPU, a passeio, um do seus inumeráveis amigos.
Quando chegou a hora de aterrizar, forte ventania começou a prejudicar a descida do avião. Do alto, Nestor via a biruta do campo “chacoalhar’, que mais parecia um rabo de cabrita. Em situação precária, subiu mais, procurando nova posição para descer. Foi quando, do alto, avistou um burro branco, amarrado, que, sossegadamente, comia capim. Falou, então, ao seu companheiro, que apresentava uma cara da cor do losango da Bandeira nacional.
- Ta vendo aquele burro lá? Pois é. É o tipo do sujeito feliz...
E continuou a fazer ginásticas com o pequeno aparelho. Não havia meios.Tinha que capotar. Mas fez a descida cautelosamente. O avião deu no capinzal, com mais dois pinotes, estava capotado. Nestor, foi espirrado pra fora, passando pela pequena janela! Um feito incrível...
Ileso, limpando as calças, o piloto disse ao companheiro, tamém já de pé:
- Ta aqui, também, um sujeito feliz... só não gostei é de comer capim...

ENRIQUECIDA A AVICULTURA

Em 1950, quando as onças de Itajobi eram a maior preocupação dos lavradores do vizinho município, pois estavam devastando o gado, o viajante Raul C. B. foi visitar o cliente Said F. Filho, comerciante estabelecido naquela praça e que deveria lhe fazer boa compra. Mas o Said, ocupadíssimo, atendia a vários fregueses, no balcão, deixando, deixando o Raul a conversar com um caboclo das redondezas. E dizia Raul ao campônio:
- Pois é. Fui eu que matei a onça de Itajobi. Estava eu com uma “bereta”, de dois canos e com muito chumbo grosso. Vai daqui, vai dali, a onça subiu num pau envergado... eu estava só espiando... quando a bicha sossegou, eu apontei e afirmei no gatilho...
Nessa ora, o Farah, já desocupado dos fregueses, interrompeu o Raul, fazendo a compra
das mercadorias de que precisava, para a sua loja. Mas o caipira, que também era caçador, esperou. Queria saber o fim da proeza daquele que havia abatido a onça de Itajobi, o terror daquela zona.
Quando o Raul terminou a venda, o matuto acercou-se dele e perguntou:
- Mecê agora vai dize como é que se arresolveu u causo da onça.
- Onde foi que eu parei?
- Mecê parou quando a onça tava na ponta do pau...
- Então – prosseguiu o Raul – quando a bichona estava em cima do pau, apontei, mirei
Bem e... pumba!...
- Matou a bruta?
- Se matei... foi só pena que avoôu...


ESTRATAGEMA INFANTIL

Vera de Fátima e Noemi, são duas mui encantadoras meninas, ambas de dez anos. A primeira, filha do Sr. Raul C. B. e a segunda, do Sr. Marcelo P. da Silva, o viajante.
Nas férias escolares, as meninas combinam sempre de brincarem juntas, na casa de uma ou outra. Os pais, então, combinam pelo telefone, quando devem levar as crianças, evitando-se contratempos e pernadas. As meninas, pois, sabiam que pra brincarem juntas, havia a prévia combinação telefônica entre os papás ou as mamãs.
- Aqui é o Marcelo, anunciou ele.
- Senhor Marcelo: Dona Carminha (mãe de Vera de Fátima), pede para o senhor deixar a
Noemi vir brincar com a Vera de Fátima.
O Marcelo, precavido como sempre, disse:
- Chame Dona Carminha ao telefone.
Aí, uma vozinha disfarçada veio atender:
- Alô...
E o Marcelo:
- Quem fala?
Ouviu-se então a vozinha embaraçada, atrapalhada:
- Aqui, quem fala é minha mãe...

CADA UM COM SUA PENA

Pela manhã, no Hotel Acácio, como nos demais hotéis, uma só mesa do refeitório é ocupada para o serviço de café.
O viajante sentou-se defronte do único outro que se encontrava no salão e depois de um sorvo de café, fez careta e exclamou:
- Isto está uma droga. Tudo neste hotel é uma droga.
- Também acho. Disse o outro que ali se achava primeiro.
- Vou mudar-me de hotel. E o senhor? Por que não faz o mesmo?
- Infelizmente não posso. E já estou aqui há três anos!...
- Três anos... como agüentou? Não tem dinheiro para pagar o que deve e sair? Tem
Algum compromisso com o dono do hotel?
- Não. Nada disso.
- Por que, então, não se vai?
- É porque eu sou o dono dessa droga...

NÃO SOU DA TROPA

Certo dia, precisei lembrar-me de uma frase pronunciada elo Sr. Salvador C., para concluir uma destas piadas. Como não capisco niente do idioma de Dante, recorri ao Pedro P., ao Lucio C., Guido B. e, finalmente, ao Dr. Antônio Z.
Nenhuma das frases apresentadas me pareceu exata, certa, que tivesse expressado o pensamento do Sr. Salvador. Enfim, aceitei a do Dr. Z. Afinal, ele havia estudado e se formado em engenharia, na Itália...
No dia seguinte, porém, com a frase à luz da publicação, veio a luz. O Padre Sílvio Gasparotto, conversando com o Pinotti, verberou a frase italiana, por incorreta. E apresentou a versão precisa.
Chateado, Pinotti, telefonou-me. Fiquei aborrecido:
- Que espiga! Afinal, vocês, italianos, devam entender a língua mater...
- Tem razão, Geraldo. Afinal, somos todos umas bestas...
- Somos não. Vê lá: não me ponha nessa marmita...

IRONIA DE CABOCLO

Esta me foi contada em 1939, pelo prof. José O. B., que disse os personagens serem de Xangrilá, não revelando, porém, seus nomes: um fazendeiro,amigo de um médico, ao qual considerava como um péssimo facultativo: e este , que gostava de caçadas.
O médico dirigia-se para uma fazenda, em seu automóvel, a serviço profissional, e vendo na estrada o amigo fazendeiro, parou para cumprimenta-lo:
- Olá, como vai?
- Como vê, não vou. Estou aqui e bem. E o nosso doutor, pelo que vejo, vai a chamado.
- Verdade. Vou até os “Tenentes”.
O fazendeiro que se aproximara do carro e notando a espingarda no assento, ao lado do
médico, ironizou:
- Ué! Pra que espingarda? Não têm confiança na receita?

DEU O GOLPE...

Delegado de polícia “espeto” que tivemos, foi o Dr. Hélio P. Processava o “gajo” por dá cá aquela palha. Que falem os escrivães Minervino, Assumpção e Meirelles, que viviam pregados às máquinas de escrever. A explosiva autoridade (que a boêmia local apelidou de Dr. Explosão), só esbravejava: “Cana com esse homem”. “Pra baixo com ele”, etc...
Verdade se diga que tudo correu bem em Xangrilá, onde parou pouco tempo. Promovido a diretor da Penitenciária de Baurú, falou-se: “Foi talhado para o cargo.
No novo cargo, logo no primeiro dia, o carcereiro levo-lhe ao gabinete um negro, preso correcional, tirado da “geladeira”:
- Doutor: ninguém agüenta lá em baixo esse bruto. Grita, berra, sapateia. Doutor: ninguém
dorme, o diabo “taí”, doutor...
Hélio P., não habituado ao cargo e julgando tratar-se de detento novo, também gritou,
exasperado:
Meta-o no xadrez e já.
O negrão, sorriu e resmungou baixo:
- E eu vô chora muito... ta pra mim...

O PESO DO DINHEIRO

Em 1949 e 50, conseguia-se carta de motorista com certa facilidade em algumas delegacias de polícia do interior. O candidato nem sempre era submetido a exames rigorosos, como atualmente. Condutor “barbeiro”, pois, era coisa comum.
Porfírio P. C., em 1954, adquiria seu “Mercury-47 e todo lampeiro e contente, foi com seu irmão Virgolino, comprar uns cachorros de caça, em Olímpia. Feitos os negócios, “encheram a cara” num bar e saíram pela cidade com o carro a parar contra-mão, em excesso de velocidade, a desobedecer todos os sinais de trânsito.
Porfírio concordou com o inspetor de trânsito, quando o advertiu pela primeira vez, mas nem por isso, deixou de circular descontroladamente pela cidade. Então, quando estacionou em lugar proibido, o guarda veio-lhe furioso:
- Olha, moço. Desta vez sou obrigado a lhe tomar a carta.
Porfírio, inchado de álcool, debochou:
- Ocê que sabe. Qué tira, tira. Vou chora... compro outra...

EURICO, O PRECAVIDO...

Em 1950, o Sr. Eurico P. era proprietário do Bar Ideal, no bairro do Higienópolis. Como o negócio prosperava , tratou de comprar um cofre para guardar seus haveres. Comprou-o, pondo toda a família a par de como se abria e fechava o mesmo.
Certo dia, porém, deu grande “bronca” em casa e resolveu que ninguém mais tocasse na “burra”. Para isso, mudou-lhe o segredo.
Alguém, por sua vez, avisou-o do erro, pois em caso excepcional, pelo menos sua esposa deveria conhecer o segrdo d ocofre, caso contrário, seria trabalhoso abri-lo. E o Eurico, respondeu ao amigo:
- Mas eu, homem, já tomei as providências. Lá dentro do cofre, num envelope, esta escrito o segredo.
- Acontece que ...
- Acontece o que, homem!... ela que se vire!

SONHO DA INFÂNCIA


O moleque da Alfaiataria Paratodos, o Sr. Manoel de Freitas, estava encafifado: todos os dias tinha ternos de roupa a entregar a domicílio. Um dia ia para o Higienópolis, noutro dia, para a Vila Rodrigues.
Numa tarde, o Manéco disse para o menino:
- Vai entregar essa roupa a domicílio no bairro de São Francisco.
O garoto não se zangou. Ao contrário, exclamou:
- Que sujeito importante!...
- Quem? – indagou o Manoel.
- Esse tal de domicilio... muda de roupa e casa “tudo” o dia... quando eu crescê... eu quero “sê” “qui” nem ele...

 

MERCADORIA CARA

O espanhol chegou ao guichê da Prefeitura e disse à funcionária, já meio zonza de tanto ouvir reclamação contra a falta de água:
- Vim pagar “el ronco”.
- Como é? Pagar o quê?
- El ronco.
- Ainda não entendi.
- EL RONCO! ... EL RON... CO...
- O senhor tenha a bondade de esperar.
A funcionária dirigiu-se ao Sr. Benedito Lopes, que poderia entender o espanhol. Lopes foi até ao contribuinte e, depois de ouvi-lo, disse à funcionária.
- O homem quer pagar o ronco da torneira de sua casa

 

“POIS EU PENSEI...”

Contou-me o Dr. Orlando Zancaner, que um dos primeiros atos do vice governador Porfírio da Paz, que nessa última emergência política substituiu o Sr. Jânio Quadros, foi o de mandar o secretário da fazenda cobrar executivamente todos os devedores ao Estado. Por isso mesmo, o próprio secretário da fazenda assustou-se quando recebeu ordens para executar o Ministério da Marinha. Foi ao Palácio dos Campos Elíseos:
- Como, Governador: O Ministério da Marinha não nos deve nada. E que devesse. Quem somos para tal execução?
- Bolas! Mostrou-se contrariado o Porfírio. Se deve, paga.
- Mas não deve, doutor.
- Então, por que vocês botaram no balancete que havia “DÍVIDA FLUTUANTE”?

 

GARGANTA BLINDADA

Em 1937, Teodoro Becker, Chico Netto, Zico Pereira, Mário Penna, então gerente do Banco Brasil e Coriolano de Oliveira Melo, foram pescar na fazenda deste último, em Japurá. Boa “cangebrina” fez parte da volumosa “tráia”, embora o Pena tivesse, com muito cuidado, levado um litro da sua “especial”.
No meio da pescaria, o Penna afastou-se, para fazer qualquer coisa. O Becker, pra lhe pregar uma peça, botou álcool na pinga do Penna. Este, voltando, foi direto à garrafa e chupou o gargalo. Os outros, não se agüentaram, abrindo-se em gargalhadas. Então, o Penna exclamou:
- Eu sei porque vocês estão rindo... botaram água na minha pinga...

 

“SE NÃO É MEU...”

Estava para se findar a votação nas eleições de 1955. A um canto do edifício da Escola Normal, o Sr. Francisco Galli, candidato a vice-prefeito, um tanto aborrecido, começava a sentir o amargor da derrota. Por isso mesmo se afastara do borborinho que ainda ia pelo interior do prédio e, ali, naquele canto fumava, pensativo , gravemente. Foi quando um “jacu” dele se aproximou e perguntou-lhe :
- Mecê pode me faze o favo de me dize adonde é que se vocta no Borelli?
O Galli tirou enfezado o chapéu e gritou, expelindo pingos de saliva:
- EM SANTA ADÉLIA! ( * )


( * ) Localidade distante à dezenas de quilômetros de Catanduva.


AMABILIDADE

Quando escrevi meu primeiro artigo no jornal, pedi impressão sobre o escrito ao Dr. José do Rosário, que por alguns anos foi redator do jornal “A Cidade”.
- Leu meu artigo de hoje?
- Sim. Três vezes...
- Que amabilidade!...
- E não li mais...
- Por quê?
- Porque não consegui entendê-lo...

OBDIÊNCIA À DATA

O pau-d´água, não havia bebido. Iria comemorar o “Dia das Mães”, a julgar pelos embrulhos que sobraçava. Andava firme e até deu demonstrações, fazendo um “4” com as pernas cruzadas.

- Olá! Firme como um arocha, hein? Não vais hoje fazer via-sacra pelos botequins? – perguntei-lhe.

- Hoje, não, pede-me o sangue. Passei a vara à mamãe. Anda por aí...


HONRA AO TRABALHADOR

Todo mundo o conhece. É um boêmio irrepreensível. E hoje, como não é qualidade ou virtude apresentar-se como tal, não serei eu denunciá-lo à sociedade. Ele está aí. Anda por aí.

No dia 1º de Maio, estava azafamado. Perguntaram-lhe:

- Pra que tanta afobação?

- Muito natural. Ando a percorrer todos os botecos da cidade.

- Por que isso?

- Pois não é hoje o Dia do Trabalho?

 

E BATEU MESMO!


O víspora bancado ia animado num clube local. Era jogo clandestino, mas a Diretoria assircava-se, para conseguir numerário em benefício da entidade.

Certo deputado fazia, então, tremenda campanha contra a jogatina na Assembléia e o Secretário da Segurança organizou “comandos” para o interior.

Os policiais paulistanos chegaram ao clube, e, como se fossem jogadores sentaram-se à mesa, a fim de “manjar” o movimento.

Lá estava o “cantador”: 35... 26... 67... Chapéus de padre (4), 38...

O “cupincha” falou ao chefe:

- Ta na hora?

- Não. Vamos esperar a outra “batida”. Quero ver a forma de pagamento ao ganhador.

E o cantador recomeçou:

- Número 2... 34... 19... dois patinhos na lagoa (22)... 54... 90...

Nessa hora, o Delegado achou oportuno fazer parar o jogo, mesmo porque seus auxiliares já estavam postados em todas as estradas e saídas do prédio. Dando um murro na mesa, para identificar a sua autoridade:

- Chega!

E o “cantador”:

- Que camarada de sorte!... Bateu na sexta pedra!

NÃO VEM, NÂO...

Disse o Jânio: “Não haverá mais estátuas, placas e dísticos em homenagem a pessoas vivas”. E o dedicado e obediente Prof. Mauro , Diretor do Colégio e Escola Normal, estaduais, mandou o servente retirar o busto do ex-governador (*) que “vigiava” a entrada do estabelecimento.

O servente depois de receber a ordem, ouviu o Dr. Paulo , o dinâmico educador que saia para o saguão:

- Cuidado com o homem... Se o quebrar, como poderá depois, recoloca-lo no lugar?

Não tenha preocupação, professor. Não faria isso, nem que eu fosse contra o “Waldemar”. Ele é dos meus...

Mas o busto vale quanto pesa, e do saguão ao depósito, vai distância. E já no corredor, o servente resfolegava:

- O “bruto” é pesado mesmo... tomara que não volte mais...

MANOBRA FERROVIÁRIA


Em 1918, o povo de Xangrilá reclamava veementemente contra a Estrada de Ferro Araraquara pela falta de vagões para embarque de seus produtos agrícolas. Inexplicavelmente, os vagões seguiam para Rio Preto. Nunca paravam ali.

O povo então, resolveu vingar-se.

Certa noite, centenas de pessoas reunidas, decidiram arrancar os trilhos desde a serraria do Sr. Sarton, situada nas proximidades da estação, até dois quilômetros adiante, onde se situam hoje os armazéns do DNC. Assim, os comboios idos para Rio Preto, teriam que parar ali e os vindos de Araraquara ficariam em Xangrilá. E os líderes desse movimento, para o desmantelamento do leito, levaram para lá uma banda de música, que tocaria para cobrir o barulho do bater das marretas.

Quando, porém, lá chegaram para iniciar o serviço, notaram que não haviam trazido as necessárias ferramentas. Entretanto, um português, dizendo-se guarda noturno da serraria, ofereceu as ferramentas da mesma. Aceitaram e agradeceram.

De fato, daí a pouco, voltava o "portuga" com uma dezena de camaradas, munidos de alavancas, marretas e chaves, e passaram a arrancar os trilhos, aceleradamente, enquando a banda tocava um "one-step".

Em duas horas, tudo terminado. O povo, que vivera uma noite de festa, recolheu-se, antegonizando o resultado que iria acontecer logo pela manhã do dia seguinte, com a chegada a Xangrilá, às 7 horas, do combôio de passageiros procedente de Rio Preto.

Muito antes daquela hora, no dia seguinte, já o povo começava a aglomerar na estação e suas imediações.

Qual, não foi, porém, o espanto geral! Precisamente no seu horário, às sete horas, o combôio entrou na estação!

Entrou porque o tal guarda-noturno, nada mais era do que o chefe da turma da EFA. Depois que o povo havia deixado o local dos trilhos arrancados, ele e os camaradas, o haviam recolocados...

UMA QUESTÃO DE ORDEM


Em 1936, já fazia um ano que Orozimbo R. da Silva exercia as funções de porteiro do Ginásio do Estado, então funcionando no antigo edifício do Largo das Órfãs. Dedicado, pontual, falando baixo e respeitosamente, é ao mesmo tempo cumpridor à risca das ordens emanadas e seus superiores.

O diretor da escola, o prof. Mário Silva Martins, tinha sua sala no andar superior, enquanto que a portaria e secretaria funcionavam no pavimento térreo. Quando o diretor necessitava de um funcionário, chamava-o pela campainha. Um dia, quando ela soou, Orozimbo galgou a longa escada e foi à sala do Diretor. Este, ordenou:

- Vá ao Sr. Fausto e pergunte-lhe o nome do senhor instrutor do Tiro de Guerra, a quem devo mandar um ofício.

Na secretaria, Fausto, o secretário, estava ocupadíssimo. Deu o recado:

- O diretor manou perguntar qual é o nome do instrutor de Tiro de Guerra.

- Você, Orozimbo, não sabe o nome dele?

- Sei.

- O instrutor não é seu parente?

- É, sim senhor; meu cunhado.

- E por que, você já não o disse ao Diretor, evitando subir e descer as escadas?

- Bem... é que... o Diretor mandou perguntar ao senhor...

ATMOSFERA CARREGADA


Quando Xangrilá dorme, só o Bar do Japonês Fukuda permanece aberto, lá no fim da Rua Minas Gerais, atendendo a viajores retardados, condutores de caminhões de carga, jogadores que saem dos clubes e também alguns boêmios. Ali, comem e bebem. Às vezes aparece um violão e cantam.

Houve um tempo em que a freqüência esteve muito mais animada e, naturalmente, o vozeiro, a cantoria, perturbavam os vizinhos. Um destes, levou reclamação à Polícia. Conseqüência: o estabelecimento ficou às moscas.

O Dr. Rento Tarcinota, que de quando em vez vinha de Vila Salles, chegando tarde da noite, entrando no bar, estranhou o silêncio, o ambiente e perguntou:

- O que houve, compadre?

- Bizinho, sô Pardo , foi na porícia e recramô barúiu...

- Ahn!... Por isso é que o ambiente está pardacento..

MANEIRAS DE DIZER

A campanha eleitoral ia intensa. Mais intensa, porém, era a dor que sofria o cliente do Dr. Bauer Stein. O conceituado facultativo aconselhou-o após o exame:

- Vá o Senhor agora ao Dr. Armando Mastroloco. Parece-me que o senhor tem uma úlcera no duodeno. Convém tirar-se uma radiografia antes de tudo o mais.

O cliente foi, subindo a Rua Brasil, em meio à tremenda atoarda eleitoral. E ao chegar ao consultório do Dr. Mastroloco, explicou-se:

- O Dr. Bauer disse que eu tenho uma Úrsula na UDN e que é para o senhor tirar uma Geografia...

ETA FUMINHO...

Em 1950, quando ia quente a campanha eleitoral para prefeito e vereança municipais, houve um dia em que Leonardo Beni estava sendo procurado com insistência por mais de uma dezena de pessoas.

Eu mesmo fui abordado várias vezes por amigos que o procuravam e, como jornalista, imaginei logo que o encontro do Beni, resultaria em importante conchavo político. Afinal, já estava eu um tanto preocupado com o homem desaparecido, quando ao tornar um cafezinho na "esquina", fui novamente interpelado. Que surpresa! Era o próprio Beni:

- Ora viva! Que figurinha difícil! Que está acontecendo? Toda gente à sua procura... alguma novidade política?

- Qual o que! São os meus filantes... recebi um fuminho muito bom. E com esses tempos bicudos... tenho que me esconder...

*DÚVIDA ESCLARECIDA

O filme era de gangsters, mas o asssassino, o criminoso, deveria ser descoberto pelo ansioso espectador. Mas, o mau estado do celulóide, interrompia as cenas e ninguém ficou sabendo, ao final, a identidade do criminoso. Um disse: -para mim o assassino deve ser o Peter Lorre. – Eu, não acho, disse outro.- Deve ser o Alan Ladd. Um terceiro que vinha chorando os "caraminguás" do ingresso, adiantou raivoso; - Palpites ! Vocês se enganam redondamente. O assassino é o Joaquim Crescêncio, o dono do cinema...

 

 





                             

 

 

 

By DTi